Assédio moral no trabalho: onde termina a cobrança por desempenho e começa o risco para empresas?
Advogada trabalhista empresarial, Daniela Brum , alerta que metas e resultados são legítimos, mas práticas inadequadas de gestão podem gerar processos e comprometer o ambiente organizacional.
PorHABLA FM•
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Na imagem Daniela Brum
A pressão por resultados faz parte da rotina das empresas. Metas, indicadores de desempenho e avaliações periódicas são instrumentos legítimos de gestão e essenciais para a competitividade dos negócios. O desafio surge quando a busca por performance ultrapassa limites que podem comprometer a saúde dos trabalhadores e gerar riscos jurídicos para as organizações. A discussão ganhou força nos últimos anos à medida que saúde mental, ambiente de trabalho e responsabilidade corporativa passaram a ocupar espaço estratégico dentro das empresas. Hoje, gestores e profissionais de Recursos Humanos enfrentam uma questão cada vez mais recorrente: como cobrar resultados sem que a conduta seja interpretada como assédio moral? Para Daniela Brum, advogada trabalhista empresarial com mais de 30 anos de atuação e especialista em consultoria preventiva para empresas, a preocupação é legítima, mas não deve levar organizações a abandonar processos de avaliação ou acompanhamento de desempenho. "O papel da liderança é orientar, corrigir desvios e acompanhar resultados. O problema surge quando a cobrança deixa de ser uma ferramenta de gestão e passa a ocorrer por meio de constrangimento, exposição ou pressão reiterada que afeta a dignidade do trabalhador", afirma.
Saúde mental entra definitivamente na agenda corporativa A preocupação das empresas encontra respaldo em organismos internacionais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que fatores presentes no ambiente de trabalho podem influenciar diretamente a saúde mental dos trabalhadores. Segundo a entidade, aspectos como excesso de carga de trabalho, baixo apoio organizacional, discriminação, violência psicológica e relações inadequadas no ambiente profissional estão entre os fatores de risco psicossociais que exigem atenção das organizações. A OMS também destaca que condições relacionadas à saúde mental, como depressão e ansiedade, estão associadas à perda de produtividade e à redução da capacidade laboral, tornando o tema uma questão não apenas de saúde pública, mas também de gestão empresarial. Nesse contexto, a organização recomenda que empresas desenvolvam ambientes de trabalho seguros, promovam práticas de liderança saudáveis e invistam na capacitação de gestores para lidar adequadamente com equipes. Quando a cobrança ultrapassa os limites da gestão Embora não exista uma fórmula única para definir quando uma cobrança se torna abusiva, especialistas apontam que determinados comportamentos merecem atenção especial. Entre eles estão:
exposição pública de colaboradores;
utilização de linguagem humilhante ou depreciativa;
ameaças frequentes relacionadas à permanência no emprego;
cobranças desproporcionais ou incompatíveis com as condições de trabalho;
isolamento deliberado de profissionais;
repetição sistemática de condutas que gerem constrangimento.
Para Daniela Brum, um dos equívocos mais comuns nas empresas é acreditar que o risco está apenas em situações extremas. "Muitas vezes, o problema não surge a partir de um episódio isolado, mas de uma sequência de comportamentos inadequados que acabam deteriorando o ambiente de trabalho. É por isso que a prevenção precisa fazer parte da cultura organizacional", explica.
O impacto vai além das ações trabalhistas A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem alertado para a necessidade de enfrentamento dos chamados riscos psicossociais no ambiente profissional. A entidade destaca que violência, assédio e outras formas de pressão psicológica podem comprometer a saúde física e mental dos trabalhadores, além de afetar o funcionamento das organizações. Para as empresas, os reflexos não se limitam a eventuais disputas judiciais. Ambientes marcados por conflitos recorrentes tendem a enfrentar desafios relacionados à retenção de talentos, ao engajamento das equipes e à construção de uma cultura organizacional saudável. Por isso, a discussão sobre assédio moral deixou de ser apenas uma questão jurídica e passou a integrar estratégias de governança, compliance e gestão de pessoas.
O papel da prevenção Na avaliação de Daniela Brum, o caminho mais eficiente continua sendo a prevenção. Isso envolve a criação de políticas claras de conduta, treinamentos periódicos para lideranças, critérios objetivos de avaliação de desempenho e canais internos capazes de identificar conflitos antes que eles se transformem em problemas maiores. "A prevenção é sempre mais eficaz do que a atuação corretiva. Empresas que orientam seus gestores, estabelecem processos transparentes e fortalecem uma cultura de respeito conseguem reduzir conflitos e aumentar a segurança jurídica das suas relações de trabalho", afirma. À medida que as organizações buscam equilibrar produtividade, bem-estar e responsabilidade corporativa, a forma como líderes conduzem feedbacks e cobranças passa a ser observada com mais atenção. O desafio não está em deixar de cobrar resultados, mas em garantir que a busca por desempenho aconteça dentro de limites compatíveis com um ambiente de trabalho saudável, respeitoso e juridicamente seguro.
Saiba mais sobre a especialista: Daniela Brum é advogada especialista em direito trabalhista empresarial, com 30 anos de experiência em consultoria preventiva para empresas e departamentos de RH. Sua trajetória combina atuação no contencioso e na prevenção de passivos trabalhistas, além de ministrar palestras e treinamentos corporativos sobre compliance, governança e prevenção de assédio moral e sexual. Autora do livro "Assédio Moral e Sexual nas Relações de Trabalho – Prevenção e Combate", lançado pela Editora Mizuno, Daniela é referência em direito trabalhista no Brasil, com foco em cultura ética e segurança psicológica no ambiente corporativo. Reconhecimento: Selecionada entre os TOP100 Advogados Digitais 2025 pela Advbox, premiação nacional que reconhece os advogados mais influentes nas redes sociais e na transformação digital da advocacia brasileira.
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