O que acontece no grupo da empresa não fica no grupo: os riscos trabalhistas do WhatsApp corporativo

Cobranças fora do expediente, exposição de colaboradores e falta de regras claras transformam aplicativos de mensagens em uma das novas preocupações de empresas e profissionais de RH

Por HABLA FM
7 Min

O que acontece no grupo da empresa não fica no grupo: os riscos trabalhistas do WhatsApp corporativo
Na imagem Daniela Brum

Por Daniela Brum, advogada especializada em direito trabalhista empresarial e assédio

Os aplicativos de mensagens se tornaram ferramentas indispensáveis para a comunicação corporativa. Seja para alinhar demandas, compartilhar informações ou agilizar decisões, plataformas como WhatsApp passaram a integrar a rotina de empresas de todos os portes.
O problema é que, em muitos casos, a adoção da tecnologia foi mais rápida do que a criação de regras para seu uso.

Hoje, profissionais de Recursos Humanos e especialistas em direito trabalhista observam um aumento das preocupações relacionadas a mensagens enviadas fora do horário de trabalho, cobranças excessivas em grupos corporativos, exposição de colaboradores e conflitos que acabam migrando do ambiente físico para o digital.
Para Daniela Brum, advogada trabalhista empresarial e especialista em consultoria preventiva para empresas, muitas organizações ainda tratam os aplicativos de mensagens como espaços informais, quando, na prática, eles já fazem parte do ambiente de trabalho.
"Existe uma percepção equivocada de que o grupo de WhatsApp é apenas uma ferramenta de comunicação. Quando utilizado para atividades profissionais, ele passa a integrar a dinâmica das relações de trabalho e pode produzir consequências jurídicas da mesma forma que qualquer outro ambiente corporativo", afirma.

O trabalho não termina quando a mensagem chega ao celular

A expansão do trabalho remoto e dos modelos híbridos acelerou a utilização de aplicativos de mensagens nas empresas. Ao mesmo tempo, cresceu a discussão sobre os limites entre a vida profissional e a vida pessoal.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem alertado que a hiperconectividade e a dificuldade de desconexão podem ampliar riscos psicossociais relacionados ao trabalho, especialmente quando não existem limites claros entre jornada e períodos de descanso.
Para especialistas, a preocupação não está apenas na tecnologia, mas no comportamento que ela pode estimular. Mensagens constantes fora do expediente, expectativa de resposta imediata e comunicação permanente podem gerar desgaste e conflitos internos.
"O problema não é o aplicativo em si. O risco surge quando a empresa não estabelece critérios claros sobre horários, urgências e expectativas de resposta. Sem esses limites, a ferramenta pode acabar contribuindo para situações de desgaste e insegurança", explica Daniela.

Quando o grupo deixa de ser apenas um canal de comunicação

Além das discussões relacionadas à jornada de trabalho, outro ponto de atenção envolve a forma como gestores e equipes se comunicam nos grupos corporativos.
Exposição pública de erros, cobranças reiteradas diante de colegas, comentários inadequados e até brincadeiras consideradas ofensivas podem se transformar em elementos relevantes em investigações internas ou disputas judiciais.
Segundo Daniela Brum, muitas empresas investem em políticas de prevenção ao assédio e em programas de compliance, mas deixam de incluir os ambientes digitais nessas iniciativas.
"Não faz sentido exigir comportamentos adequados dentro do escritório e ignorar o que acontece nos canais digitais. A cultura organizacional precisa ser a mesma em qualquer ambiente utilizado para o trabalho", afirma.

O desafio da governança digital

A crescente digitalização das relações profissionais tem levado empresas a repensar suas políticas internas.
Questões que antes eram tratadas apenas sob a ótica da tecnologia passaram a envolver áreas como Recursos Humanos, Compliance e Jurídico.
Entre os principais desafios estão:
  • definição de horários adequados para comunicações não urgentes;
  • orientação sobre linguagem e conduta em grupos corporativos;
  • preservação da privacidade dos colaboradores;
  • prevenção de situações que possam caracterizar assédio ou constrangimento;
  • gestão adequada de informações e registros digitais.
Para Daniela Brum, a ausência de regras claras costuma ser um dos principais fatores de risco.
"Muitas empresas acreditam que todos entendem intuitivamente como utilizar essas ferramentas. Na prática, cada pessoa possui uma percepção diferente sobre limites, disponibilidade e forma de comunicação. É justamente aí que surgem os conflitos", observa.

Prevenção vale mais do que correção

Assim como acontece em outras áreas do direito trabalhista empresarial, a prevenção continua sendo a estratégia mais eficiente.
Especialistas recomendam que empresas estabeleçam políticas específicas para o uso de aplicativos corporativos, promovam treinamentos periódicos e orientem lideranças sobre boas práticas de comunicação digital.
O objetivo não é restringir a utilização das ferramentas, mas garantir que elas contribuam para a produtividade sem comprometer o respeito, o bem-estar e a segurança jurídica das relações de trabalho.
"Os aplicativos de mensagens vieram para ficar. O desafio das empresas não é impedir seu uso, mas criar regras que permitam aproveitar seus benefícios sem gerar conflitos desnecessários. Quando a comunicação é bem estruturada, a tecnologia se torna uma aliada. Quando não há orientação, ela pode se transformar em uma fonte de problemas", conclui Daniela Brum.
À medida que as relações profissionais se tornam cada vez mais digitais, cresce também a necessidade de que empresas tratem seus grupos corporativos com o mesmo cuidado dedicado aos demais ambientes de trabalho. Afinal, o que acontece no grupo da empresa dificilmente fica apenas no grupo.
Saiba mais sobre a especialista:
Daniela Brum é advogada especialista em direito trabalhista empresarial, com 30 anos de experiência em consultoria preventiva para empresas e departamentos de RH. Sua trajetória combina atuação no contencioso e na prevenção de passivos trabalhistas, além de ministrar palestras e treinamentos corporativos sobre compliance, governança e prevenção de assédio moral e sexual.
Autora do livro "Assédio Moral e Sexual nas Relações de Trabalho – Prevenção e Combate", lançado pela Editora Mizuno, Daniela é referência em direito trabalhista no Brasil, com foco em cultura ética e segurança psicológica no ambiente corporativo.
Reconhecimento: Selecionada entre os TOP100 Advogados Digitais 2025 pela Advbox, premiação nacional que reconhece os advogados mais influentes nas redes sociais e na transformação digital da advocacia brasileira.

Livro disponível : Assédio Sexual e Assédio Moral nas Relações de Trabalho — Editora Mizuno
Contato e redes sociais: @danielabrum_adv no Instagram

 

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ROBERTA FABIANI DA TRINDADE
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