É fácil olhar para as redes sociais e acreditar que a maternidade é um mar de rosas feito de estabilidade e maturidade. Mas quem vive essa realidade no dia a dia sabe que a engrenagem é bem diferente. Longe dos filtros perfeitos do Instagram, o que existe é um malabarismo exaustivo para dar conta de filhos pequenos sem deixar a carreira desandar. É uma rotina que exige muito jogo de cintura e que, quase sempre, cobra um preço alto da saúde física e mental das mulheres.
Quem conhece de perto esse turbilhão é Lorrane Deocleciano, idealizadora do Projeto AMI (Apoio a Mulheres de Baixa Renda). Sentindo na pele os altos e baixos de ser mãe nessa fase da vida, ela faz questão de colocar o pé no chão e falar sobre o que quase ninguém coragem de admitir. Para a gestora, o cansaço acumulado e a cobrança interna para ser perfeita em todas as funções são barreiras diárias que precisam ser encaradas de frente, sem a maquiagem da romantização.
"Existe uma cobrança invisível para que a mulher seja impecável em tudo, já que, teoricamente, ela teve tempo para se planejar. Mas a verdade é que o dia continua tendo as mesmas 24 horas e o corpo sente o ritmo de forma diferente. Quando o bebê acorda de madrugada e você tem uma reunião decisiva logo cedo, não há filtro de internet que resolva a exaustão física", desabafa a fundadora da iniciativa social.
O mercado de trabalho também não costuma ser generoso. Muitas profissionais que ralaram anos para alcançar cargos de destaque se veem diante do medo real de perder espaço após a licença-maternidade. A dinâmica das empresas, na maioria das vezes, ignora o tempo de adaptação que um bebê exige, empurrando as mulheres para uma escolha injusta entre o crescimento profissional e os primeiros anos da criação dos filhos.
Olhando para além da própria realidade, a liderança por trás do Projeto AMI lembra que esse cenário consegue ser ainda mais pesado para quem está na ponta mais frágil da corda. Se para quem tem recursos o dia a dia já é uma maratona, para as mães que vivem em situação de vulnerabilidade e não têm como pagar por ajuda ou negociar horários no emprego, a situação beira o insustentável.
"Precisamos falar sobre a vida real, estruturando redes de apoio que funcionem na prática, seja dentro de casa, nas empresas ou em projetos sociais. Se para quem tem recursos já é um cenário desafiador e cansativo, para as mães periféricas a maternidade tardia pode ser um isolamento ainda maior. O equilíbrio só existe quando há compartilhamento de responsabilidades", conclui.
Fonte: Lorrane Deocleciano - Idealizadora do Projeto AMI (apoio a mulheres de baixa renda) - Diretora ABV Proteção Patrimonial Mutualista
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MARIA JULIA HENRIQUES NASCIMENTO
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