Na saúde e na doença: o desafio de apoiar o parceiro em crises de saúde mental sem anular a si mesmo.

Especialistas discutem os limites entre o suporte afetivo e a codependência, mostrando como o acolhimento médico correto ajuda a preservar o equilíbrio emocional do casal.

Por Bendita Letra
4 Min

Na saúde e na doença: o desafio de apoiar o parceiro em crises de saúde mental sem anular a si mesmo.
Dr. Alexandre Araújo | Médico Psiquiatra - Com atuação em Psiquiatria Geral, Psicoterapia e Dependências Químicas.
 

Viver de perto a rotina de um transtorno psiquiátrico mexe muito com a estrutura de qualquer casa, e quem mais sente esse impacto, depois do próprio paciente, é quem divide a vida e a cama com ele. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo convivem com algum problema de saúde mental, o que significa que existem também centenas de milhões de parceiros tentando entender como ajudar. Quando a depressão, a ansiedade ou a dependência química batem à porta, a reação quase automática de quem ama é abraçar o mundo e virar um cuidador em tempo integral. Só que, nessa tentativa desesperada de salvar o outro, é muito fácil cruzar uma linha invisível e começar a se anular por completo.

Achar o equilíbrio entre o acolhimento e a autopreservação é uma das tarefas mais dolorosas e complexas de um relacionamento. O Dr. Alexandre Araújo, médico psiquiatra que lida diariamente com psiquiatria geral, psicoterapia e dependência química, explica que essa dedicação cega costuma cobrar um preço alto. "É muito comum que o parceiro comece a se responsabilizar pelo bem-estar absoluto do outro, esquecendo-se de suas próprias necessidades básicas, hobbies e momentos de descanso. Quando a vida de uma pessoa passa a orbitar exclusivamente em torno da oscilação de humor do cônjuge, o relacionamento adoece", afirma o especialista.

O problema é que esse sacrifício todo, que no começo parece o maior gesto de amor do mundo, aos poucos vai virando uma codependência perigosa. Quem cuida para de olhar para si, para a própria saúde e para os próprios limites, acumulando um cansaço físico e mental que sufoca. O psiquiatra lembra que tentar carregar esse piano sozinho, sem abrir os olhos para o tamanho do problema, só piora as coisas para o casal. "Ninguém consegue ser o terapeuta ou o médico do próprio companheiro. Tentar assumir esse controle, além de infrutífero, gera um desgaste que anula o papel afetivo da relação, transformando o casamento em uma constante vigilância", pontua.

É exatamente aí que o suporte de um profissional de saúde faz toda a diferença, funcionando como um respiro e uma tomada de realidade para os dois. Quando o paciente recebe o diagnóstico e o tratamento adequados, seja com terapia, medicamentos ou suporte para o vício, o companheiro finalmente ganha o direito de deixar de ser o médico da casa para voltar a ser apenas o parceiro. "O diagnóstico e o acompanhamento médico servem também para dar um contorno de realidade à situação. Eles tiram o peso das costas do companheiro, mostrando que a melhora depende de um processo clínico, e não do sacrifício pessoal de quem está ao lado", esclarece o Dr. Alexandre.

Aprender a colocar esse limite saudável não significa amar menos ou abandonar o outro na hora do aperto; pelo contrário, é o que garante que a relação sobreviva à tempestade. O tratamento certo dá estrutura para que quem ajuda entenda que dá para ser empático sem precisar sofrer junto a mesma dor. "Apoiar não significa carregar o outro nas costas a ponto de quebrar a própria espinha. O verdadeiro suporte acontece quando quem ajuda também se mantém de pé, preservando seus espaços de individualidade para que possa, de fato, ser uma presença firme e saudável nos momentos mais difíceis", conclui o médico.

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Fonte: Dr. Alexandre Araújo | Médico Psiquiatra - Com atuação em Psiquiatria Geral, Psicoterapia e Dependências Químicas.


 

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MARIA JULIA HENRIQUES NASCIMENTO
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