O chefe é o problema? Quando a liderança se torna um fator de adoecimento nas empresas

Especialista explica como práticas de gestão baseadas em medo, controle excessivo e pressão constante afetam a saúde psicológica dos profissionais e comprometem resultados

Por Bendita Letra
5 Min

O chefe é o problema? Quando a liderança se torna um fator de adoecimento nas empresas
Renata Livramento — Psicóloga | Doutora em Administração | Especialista em Gestão de Saúde Corporativa
 

O debate sobre saúde mental no trabalho ganhou um novo patamar no Brasil. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, o maior número já registrado no país e um crescimento de 15,66% em relação a 2024, quando foram contabilizados 472.328 afastamentos. O cenário reforça um alerta importante: quais fatores têm contribuído para o adoecimento dos trabalhadores dentro das organizações? Entre eles, um tema que ainda gera desconforto nas empresas ganha cada vez mais espaço: a influência da liderança sobre a saúde psicológica das equipes.

Embora a pressão por resultados faça parte da dinâmica corporativa, especialistas alertam que determinados estilos de gestão podem transformar o ambiente de trabalho em uma fonte constante de estresse. Cobranças excessivas, microgerenciamento, metas inalcançáveis, falta de reconhecimento e uma cultura baseada no medo são exemplos de práticas que favorecem o surgimento de ansiedade, esgotamento emocional e outros transtornos relacionados ao trabalho.

Para a psicóloga e doutora em Administração Renata Livramento, especialista em gestão de saúde corporativa, muitas empresas ainda tratam a saúde mental como uma responsabilidade exclusivamente individual, ignorando o papel da liderança na construção do ambiente organizacional. “Nem todo sofrimento no trabalho é causado pelo chefe, mas uma liderança despreparada pode potencializar riscos psicológicos que já existem. Quando o colaborador vive sob vigilância constante, pressão excessiva ou medo de errar, o organismo passa a operar em estado permanente de alerta”, explica.

O problema vai além do bem-estar individual. Ambientes marcados por lideranças tóxicas costumam apresentar índices mais elevados de absenteísmo, rotatividade, conflitos internos e queda de produtividade. Isso acontece porque o desgaste emocional compromete a capacidade de concentração, tomada de decisão, criatividade e colaboração entre equipes.

A discussão se torna ainda mais relevante diante das mudanças recentes na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir que as empresas identifiquem, avaliem e gerenciem riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Entre os fatores que precisam ser observados estão justamente situações ligadas à organização do trabalho, como sobrecarga, assédio moral, metas abusivas e problemas de gestão.

Segundo Renata, a atualização da norma representa uma mudança importante na forma como o adoecimento mental é encarado no ambiente corporativo. “Durante muito tempo, a discussão se concentrava apenas na capacidade do indivíduo de lidar com a pressão. Agora, as empresas são chamadas a olhar para as condições que produzem essa pressão. A pergunta deixa de ser apenas ‘por que as pessoas estão adoecendo?’ e passa a incluir ‘o que existe na organização que está contribuindo para esse adoecimento?’”, afirma.

Isso não significa eliminar cobranças ou reduzir o compromisso com resultados. O desafio está em construir modelos de liderança capazes de combinar desempenho e segurança psicológica. Gestores que promovem diálogo, autonomia, clareza de expectativas e reconhecimento tendem a formar equipes mais engajadas e resilientes, além de reduzir fatores associados ao adoecimento ocupacional.

Para a especialista, a qualidade da liderança será cada vez mais um indicador estratégico de saúde organizacional. “As empresas costumam medir produtividade, faturamento e desempenho, mas ainda dedicam pouca atenção ao impacto das relações de trabalho sobre a saúde das pessoas. Em muitos casos, o problema não está na atividade executada, mas na forma como ela é gerida”, conclui.

Em um cenário de crescimento acelerado dos afastamentos por transtornos mentais, a discussão sobre liderança deixa de ser apenas uma pauta de gestão e passa a ocupar um espaço central na agenda de saúde corporativa.

Saiba mais sobre o trabalho da Renata Livramento: renatalivramento.com.br | @renata.livramento

Fonte: Renata Livramento — Psicóloga | Doutora em Administração | Especialista em Gestão de Saúde Corporativa


 

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MARIA JULIA HENRIQUES NASCIMENTO
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