Quando a marca é o fundador

O estrategista Lucas Akiyama desenvolveu um método inédito para conduzir a transição de identidade corporativa sem ruptura de confiança e sua aplicação revela um problema silencioso em centenas de grupos empresariais brasileiros

Por MA2 COMMS
12 Min

Quando a marca é o fundador
Arquivo pessoal

Há um momento, no ciclo de vida de toda empresa fundada por um empreendedor visionário, em que o crescimento revela uma armadilha estrutural quase invisível. A marca que garantiu a sobrevivência nos primeiros anos, frequentemente construída sobre o sobrenome do fundador, sua reputação pessoal, seu histórico de entregas, passa a ser, simultaneamente, o maior ativo e o principal obstáculo à expansão. É o paradoxo da marca-fundador: quanto mais ela vale, mais difícil é evoluir. 

Lucas Akiyama passou anos imerso nesse paradoxo. Estrategista de marca e branding corporativo com trajetória construída na intersecção entre identidade visual, gestão de mudança e arquitetura institucional, ele foi chamado a resolver, de forma prática e urgente, um problema que a literatura de negócios raramente aborda com a granularidade que os executivos precisam: como conduzir a transição de uma marca consolidada — fundada em 2005, com duas décadas de autoridade acumulada em mercados B2B e governamentais — para uma estrutura de grupo com múltiplas unidades, sem perder o equity construído. 

A resposta que Akiyama desenvolveu é um framework proprietário, documentado, replicável e aplicado em um caso real de alta complexidade. Ele chama o método de MTEIAG (Método de Transição Estratégica de Identidade e Arquitetura de Grupo). E sua criação representa uma contribuição relevante a um campo que, no Brasil, ainda opera majoritariamente por intuição. 

O problema que ninguém nomeia 

O mercado brasileiro de fusões, aquisições e consolidação empresarial atravessa um de seus momentos mais dinâmicos. Segundo dados da KPMG, o Brasil registrou mais de mil transações de M&A em 2023, com crescimento expressivo nos segmentos de tecnologia, saúde e serviços especializados. O fenômeno das holdings familiares em expansão, dos grupos regionais que se tornam nacionais e das empresas fundadas por especialistas que se transformam em plataformas corporativas diversificadas é uma realidade crescente. 

O que esse movimento raramente contempla com rigor adequado é a dimensão da identidade. Executivos e advisors de M&A dominam os aspectos financeiros, jurídicos e operacionais de uma transição. Mas a pergunta ‘o que acontece com a marca?’ tende a ser respondida tardiamente, de forma improvisada, ou delegada a agências criativas sem o instrumental estratégico necessário para lidar com os riscos envolvidos. 

Esses riscos são três, e Akiyama os nomeia com precisão clínica. O primeiro é a diluição de equity: ao mudar o nome de uma marca consolidada, perde-se recall, confiança, autoridade e associação histórica, ativos intangíveis que levaram anos para ser construídos e não constam em nenhum balanço patrimonial. O segundo é a ruptura institucional: em mercados B2B e governamentais, mudanças abruptas de identidade podem gerar percepção de instabilidade, de empresa nova, de descontinuidade, o que, em contratos de longo prazo ou relacionamentos com o setor público, pode ter consequências comerciais severas. O terceiro é a fragmentação: sem uma arquitetura de marca bem definida, unidades de negócio tendem a criar identidades desconectadas entre si, enfraquecendo o grupo e dificultando posicionamentos futuros. 

"Transição sem ruptura: a marca muda, mas a confiança permanece”, este é o princípio central do MTEIAG 

O caso aplicado: de marca pessoal a arquitetura de grupo 

O contexto em que o MTEIAG foi desenvolvido e aplicado é emblemático. Uma empresa fundada em 2005, que carregava o sobrenome do fundador como marca, havia crescido ao longo de quase duas décadas para abranger frentes distintas: soluções biométricas institucionais, automação industrial, biometria neonatal e uma iniciativa social. O crescimento era legítimo e consistente. Mas a identidade não havia acompanhado essa evolução, pois ainda estava ancorada na figura de origem, em um nome pessoal, em uma narrativa singular que não comportava mais a pluralidade do que o grupo havia se tornado. 

A decisão de criar uma estrutura de grupo, com marca-mãe e unidades operacionais, era inevitável. O desafio era fazê-lo sem desfazer o que havia sido construído. Akiyama foi chamado para liderar essa transformação e a ausência de um método estruturado disponível no mercado o levou a construir um. 

O resultado foi uma transição concluída com preservação de autoridade e coerência institucional, com sistema de marca escalável e unificado. Mais do que um projeto de rebranding, tratou-se de uma operação cirúrgica de gestão de identidade corporativa conduzida em cinco fases interdependentes, com instrumentos proprietários para cada etapa. 

O método: cinco fases, zero improviso 

A primeira fase do MTEIAG é o Mapeamento de Equity e Ativos de Confiança. Antes de qualquer decisão criativa, o método exige que se compreenda, com rigor analítico, o que não pode ser perdido. Para isso, Akiyama desenvolveu três instrumentos: a Matriz de Ativos de Confiança (MAC), que mapeia fontes de autoridade por stakeholder — governo, parceiros B2B, fornecedores, colaboradores e mercado em geral; a Auditoria de Risco Reputacional (ARR), que classifica riscos por severidade e probabilidade; e o Inventário de Provas de Continuidade (IPC), que lista os elementos que precisam ser preservados: certificações, histórico de cases, datas institucionais, discursos fundadores, portfólio, marcas registradas. Somente após esse mapeamento detalhado é que a empresa tem clareza sobre os requisitos mínimos de continuidade para qualquer transição segura. 

A segunda fase trata do Design da Arquitetura Corporativa — a estrutura hierárquica que define a relação entre marca-mãe e marcas filhas. O método oferece três ferramentas proprietárias: o Blueprint de Arquitetura de Marca (BAM), que documenta a hierarquia e as relações entre marcas; a Lógica de Naming por Categoria (LNC), que estabelece regras para nomear unidades futuras com consistência; e o Mapa de Posicionamento Multimarca (MPM), que delimita a proposta de valor de cada unidade e evita sobreposições. É nessa fase que se decide o modelo de arquitetura — branded house, house of brands, ou um modelo híbrido endossado —, e que o naming da transição é estabelecido com lógica estratégica, não apenas criativa. 

A terceira fase cria o Sistema Integrado de Identidade Visual: não uma identidade única, mas um sistema visual que garanta unidade sem apagar diferenciações legítimas entre unidades. A Visual System Matrix (VSM) define o que é padrão e o que pode variar; o Brand Kit Modulado (BKM) produz um manual master com módulos por unidade. O resultado é uma família visual reconhecível como grupo, mas com diferenciações controladas que preservam a especificidade de cada frente de negócio. 

A quarta fase — frequentemente a mais sensível e a mais negligenciada em processos de rebranding — é a Estratégia de Comunicação Interna e Externa. Akiyama parte de um princípio que parece óbvio, mas raramente é aplicado: colaboradores precisam entender a mudança antes do mercado. O Narrative Transition Deck (NTD) é um deck de narrativa que responde às perguntas essenciais: por que a marca mudou, o que permanece, qual é o argumento institucional. O Stakeholder Communication Playbook (SCP) oferece roteiros específicos por público — governo, parceiros B2B, fornecedores, imprensa. O Plano de Migração Gradual (PMG) define a estratégia de coexistência temporária, permitindo que a nova identidade seja introduzida sem que a confiança da identidade anterior seja abruptamente descartada. 

A quinta fase completa o ciclo: Consolidação, Governança e Escalabilidade. O Brand Governance Charter (BGC) define as regras institucionais, quem aprova decisões de marca, como novas unidades entram no sistema, quais são os padrões mínimos de conformidade. O Brand Performance Scorecard (BPS) estabelece as métricas de acompanhamento da consolidação: recall, reputação, clareza de posicionamento, performance institucional. É a fase que transforma o rebranding em governança contínua, garantindo que a mudança se sustente e que o sistema de marca funcione como ativo gerenciável no longo prazo. 

Por que este método importa agora 

O MTEIAG chega ao debate público em um momento em que a sofisticação do mercado brasileiro de branding está em expansão acelerada, mas ainda convive com uma lacuna metodológica significativa. As grandes consultorias internacionais oferecem frameworks robustos para empresas de grande porte. As agências criativas dominam o processo estético. Mas o nicho das empresas médias em transição — grupos familiares, holdings regionais, empresas fundadas por especialistas que se tornaram referências em seus setores — raramente encontra instrumentais específicos para sua realidade. 

É exatamente esse nicho que o MTEIAG endereça. A replicabilidade do método foi pensada desde sua concepção: ele funciona em empresas familiares em expansão, holdings em consolidação, grupos com múltiplas marcas sem sistema unificado, organizações com risco institucional elevado, como aquelas que operam com o governo, em saúde ou em segurança pública. O critério de uso é claro: quando o custo de ruído e perda de confiança é alto, e a migração precisa ser estrategicamente gerenciada. 

Mais do que um conjunto de ferramentas, o que Akiyama propõe é uma mudança de perspectiva sobre o que é uma transição de marca. Não é um evento criativo. É uma operação de gestão estratégica de ativos intangíveis com todas as implicações de planejamento, governança, comunicação e monitoramento que essa afirmação implica. 

O futuro da identidade corporativa no Brasil 

O cenário que se desenha para os próximos anos é de intensificação dos movimentos de consolidação empresarial no Brasil. A pressão por escala, a chegada de capital estrangeiro em setores antes fragmentados, a maturação das empresas fundadas na primeira onda de empreendedorismo tecnológico e a profissionalização das holdings familiares de segunda geração vão colocar, de forma recorrente, o problema que o MTEIAG foi criado para resolver. 

Nesse contexto, a contribuição de Lucas Akiyama vai além de um caso bem-sucedido. Ela representa uma sistematização inédita de um conhecimento que, até aqui, vivia disperso em experiências pontuais, executado por profissionais talentosos sem método documentado. A transformação desse conhecimento tácito em framework replicável é, em si, uma inovação metodológica e é o que distingue o MTEIAG de uma solução pontual para transformá-lo em contribuição ao campo do branding estratégico brasileiro. 

A marca, no final, é o que uma empresa promete e o que entrega. Quando essa promessa atravessa décadas, converte-se em contratos, em reputação, em autoridade junto a clientes e ao Estado, a responsabilidade de gerenciá-la com rigor não é apenas estética. É estratégica, institucional e, em última análise, financeira. O método de Akiyama lembra ao mercado que transições de identidade não são redesigns são operações de preservação de valor. E que fazê-las bem é, tanto quanto qualquer due diligence financeira, parte essencial de construir grupos empresariais duradouros. 


Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
MARIANA CRISTINA ALVES DE ASSIS
[email protected]


Notícias Relacionadas »