A imagem de Sam Altman, um dos rostos mais emblemáticos do Vale do Silício, paira sobre uma discussão que, à primeira vista, parece distante de sua realidade bilionária, mas que diz muito sobre o espírito do nosso tempo. Durante anos, fomos bombardeados com a cartilha do sucesso moderno: largue a CLT, seja seu próprio chefe, abrace a autonomia e conquiste a liberdade. O crachá virou símbolo de aprisionamento; o CNPJ, a chave para a realização. Mas, como toda maré, essa também começou a virar.
Pesquisa recente realizada pelo instituto Vox Populi em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), e centrais sindicais, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) jogou um balde de água fria nesse otimismo quase fabricado. Mais da metade dos brasileiros que trocaram a carteira assinada pela aventura de empreender agora sonha com o caminho de volta.
A razão é simples e brutal: a prometida autonomia não pagou as contas. A jornada do herói empreendedor, tantas vezes romantizada em palestras e postagens nas redes sociais, encontrou seu vilão na estatística fria: seis em cada dez novas empresas no Brasil fecham as portas em menos de cinco anos.
Para uma parcela significativa dos 38% de trabalhadores informais do país, o empreendedorismo nunca foi sobre vocação. Foi, e continua sendo, sobre sobrevivência. É a resposta pragmática à falta de opção, um bote salva-vidas em um mercado de trabalho turbulento, e não o iate luxuoso que nos venderam.
E é justamente no meio dessa desilusão que surge o paradoxo mais curioso. Enquanto o ex-CLT anseia pela segurança do crachá, cerca de 40% dos seus antigos colegas de carteira assinada sonham em fazer o caminho inverso. É a materialização perfeita do ditado: a grama do vizinho é sempre mais verde.
O que essa dança das cadeiras revela? Talvez que a verdadeira busca não seja por um modelo de trabalho específico, mas por um equilíbrio que parece cada vez mais utópico: a segurança da CLT com a flexibilidade do empreendedorismo. Queremos o salário fixo sem o chefe, a autonomia sem o risco da falência.
No fim das contas, a lição é que nenhum caminho oferece solução mágica. Ambos os lados do muro têm suas próprias cercas elétricas. Enquanto idealizarmos o que não temos, continuaremos presos nesse ciclo de insatisfação, olhando com inveja para o jardim ao lado, sem perceber que o problema pode estar na qualidade da semente que insistimos em plantar.
Lorranny Sousa é especialista em Recursos Humanos, CEO da Acelere Gestão de Pessoas e diretora de geração de valor ao associado da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil)
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