Novo golpe pode criptografar fotos e documentos de celulares Android sem instalar aplicativos
Pesquisadores identificam método que utiliza recursos legítimos do navegador para atingir arquivos pessoais sem instalar aplicativos ou explorar vulnerabilidades
PorJULIANA VERCELLI•
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Imagem ilustrativa - Divulgação Check Point Software
Os pesquisadores daCheck Point Software descobriram uma nova técnica de ransomware capaz de criptografar fotografias, documentos e outros arquivos pessoais armazenados em dispositivos Android diretamente pelo navegador. Segundo os especialistas da empresa, o método utiliza recursos legítimos da web, dispensa a exploração de vulnerabilidades, a instalação de aplicativos e conhecimentos técnicos avançados por parte do atacante. Embora a técnica ainda não tenha sido identificada em ataques reais, os pesquisadores alertam que sua implementação exige baixo esforço e pode representar um novo vetor de ameaças.
A descoberta ocorreu durante a análise de aproximadamente 3 mil arquivos atribuídos ao modelo de inteligência artificial DeepSeek identificados em bases públicas de monitoramento de ameaças. Entre eles, os pesquisadores da Check Point encontraram um código que conseguiu relacionar um recurso legítimo do navegador a uma cadeia prática de ransomware, demonstrando como modelos de IA podem transformar conceitos teóricos em ataques potencialmente utilizáveis.
O elemento central da técnica é a utilização da File System Access API, funcionalidade presente em navegadores baseados em Chromium que permite a um site solicitar acesso a arquivos e pastas do dispositivo mediante autorização do usuário. Depois que essa permissão é concedida, a página pode ler, modificar e sobrescrever arquivos localizados no diretório selecionado.
Segundo os pesquisadores, o risco aumenta porque esse pedido de autorização pode surgir em um contexto aparentemente legítimo. Em um dos testes realizados por eles, foi criada uma falsa ferramenta de IA para aprimoramento de fotografias. O usuário selecionava uma imagem para edição e, em seguida, autorizava o acesso a uma pasta para salvar o suposto resultado do processamento. Enquanto acreditava que a IA estava melhorando a fotografia, a aplicação criptografava os arquivos armazenados naquele diretório.
Ao contrário de campanhas tradicionais de ransomware, o processo ocorre inteiramente dentro do navegador. Não há download de arquivos executáveis, instalação de aplicativos nem exploração de falhas de segurança. Para o usuário, a interação pode parecer apenas mais uma etapa comum de utilização de uma ferramenta online.
Por que o Android preocupa mais
Os pesquisadores da Check Point destacam que o impacto é maior em dispositivos Android porque o Chrome passou a oferecer suporte à API File System Access na plataforma móvel a partir da sua versão 132. Durante os testes realizados com o Chrome 148, foi possível solicitar acesso ao diretório DCIM, pasta onde normalmente ficam armazenadas fotografias, documentos digitalizados, capturas de tela de aplicativos bancários, códigos de recuperação de contas, registros médicos, documentos de viagem e outros arquivos pessoais.
Segundo a análise realizada pelos especialistas, caso esse acesso seja concedido pelo usuário, esses arquivos podem ser criptografados, copiados ou enviados para servidores remotos, abrindo espaço para extorsão, chantagem, exposição de informações sensíveis e prejuízos pessoais ou profissionais.
Nos dispositivos da Apple, a técnica atualmente não é aplicável porque o navegador Safari não disponibiliza a mesma interface de acesso ao sistema de arquivos utilizada na demonstração desenvolvida pelos pesquisadores da Check Point.
Outro aspecto destacado por eles é que a descoberta não representa uma nova vulnerabilidade do navegador. O diferencial observado pelos pesquisadores foi a capacidade de um modelo de IA conectar conhecimentos já existentes sobre funcionalidades legítimas da web e transformá-los em uma cadeia prática de ataque que não havia sido identificada anteriormente em campanhas reais.
Segundo a equipe da Check Point Research (CPR), essa mudança reduz a barreira técnica para o desenvolvimento de novos ataques. Em vez de exigir conhecimento aprofundado sobre APIs, navegadores e sistemas operacionais, modelos de IA podem relacionar automaticamente recursos disponíveis nas plataformas para construir protótipos funcionais a partir de solicitações descritas em linguagem natural.
Embora os pesquisadores não tenham encontrado evidências de exploração dessa técnica em ataques ativos, eles decidiram divulgar a análise por considerarem baixo o esforço necessário para transformá-la em uma ameaça operacional.
Para Eli Smadja, líder de Pesquisa da CPR, a descoberta indica uma mudança na forma como novas técnicas de ataque poderão surgir nos próximos anos. "Pela primeira vez, encontramos evidências de que um modelo de IA foi capaz de relacionar recursos legítimos de uma plataforma e chegar a uma técnica prática de ataque que até então permanecia principalmente no campo teórico. Isso reduz significativamente a barreira para o desenvolvimento de novas ameaças."
Como reduzir o risco
Os pesquisadores da Check Point recomendam que usuários tratem solicitações de acesso a pastas feitas pelo navegador como decisões de segurança, e não como simples etapas de navegação. Antes de conceder qualquer permissão, é importante verificar qual site está fazendo o pedido, qual diretório será compartilhado e se realmente existe necessidade de permitir alterações nos arquivos.
O perigo é que esse tipo de solicitação pode parecer perfeitamente legítimo. Ao utilizar uma ferramenta online para editar imagens com IA, por exemplo, o usuário tende a considerar natural autorizar o acesso a uma pasta, sem perceber que está concedendo uma permissão com potencial para ser explorada de forma maliciosa.
Também é recomendável evitar conceder acesso a pastas que armazenem fotografias, documentos pessoais, códigos de recuperação de contas ou outras informações sensíveis; utilizar aplicativos ou serviços reconhecidos para manipular arquivos importantes; manter cópias de segurança atualizadas; e desconfiar de ferramentas online baseadas em IA que solicitem permissões amplas de acesso a arquivos locais.
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