Cerqueira César - São Paulo – O resgate da convivência social, a democratização do acesso à cultura e a geração de empregos na economia criativa. Esse são os pilares do 1º Festival Cine Cerqueira, evento que transformou temporariamente uma cidade sem salas de exibição na capital da sétima arte. Mais do que uma celebração cultural, a iniciativa gerou um debate de interesse nacional: a urgência de descentralizar o cinema no Brasil e resgatar o hábito do convívio comunitário, hoje fragilizado pelo isolamento das redes sociais e das plataformas de streaming.
O custo da cultura: cinema versus shows milionários
Um dos principais saldos do festival é a provocação econômica sobre o uso de verbas públicas nos municípios brasileiros. Realizado com uma verba modesta oriunda do edital ProAC CultSP, do Governo do Estado de São Paulo, o evento operou com custo zero de contrapartida para a prefeitura local.
Estudos do setor cultural apontam que o cachê de um único cantor sertanejo de primeira linha contratado para festas municipais — que frequentemente ultrapassa a marca de R$ 500 mil a R$ 1 milhão — seria suficiente para manter uma sala de cinema pública funcionando por um ano inteiro. Enquanto grandes shows trazem entretenimento efêmero e geram debates sobre gastos públicos nas pequenas cidades, o cinema permanente se apresenta como um investimento sustentável em infraestrutura humana, educação e cidadania.
Combate ao isolamento e resgate dos anos 60
O festival quebrou um jejum cinematográfico de mais de 30 anos na região, atraindo um público que superou em 200% as expectativas iniciais. Para os organizadores, o maior impacto foi ver diferentes gerações dividindo o mesmo espaço sob o impacto da tela grande. Num mundo pós-COVID, esse gesto simples, ir ao cinema, ganha a dimensão do concurso de Miss Sarajevo, extrapola o evento e carrega uma aura de resiliência diante de uma situação adversa.
O fenômeno ataca diretamente um dos grandes males contemporâneos: o isolamento social. Ao propor o retorno às salas de rua, o projeto busca reativar o modelo de convivência característico dos anos 1960, época em que o cinema funcionava como a principal praça pública e ponto de encontro da sociedade. Essa era a verdadeira rede social! A proposta é desconectar o cidadão da tela individual do celular ou da televisão de casa para reinseri-lo no debate coletivo e na convivência real com seus vizinhos.
Injeção econômica e geração de empregos
Além do ganho social, a universalização de salas e festivais de cinema funciona como um poderoso motor econômico para pequenos e médios municípios brasileiros. A cadeia produtiva do audiovisual é uma das que mais gera postos de trabalho no país:
- Produção: Cada longa-metragem exige a contratação de dezenas de profissionais, desde técnicos de som e luz até figurinistas, marceneiros, motoristas e prestadores de serviços de alimentação local.
- Exibição: A manutenção de uma sala permanente cria empregos diretos de longo prazo para operadores de projeção, bilheteiros, equipes de segurança, limpeza e gerenciamento de espaço.
- Turismo e Comércio: Eventos e salas de rua movimentam o comércio do entorno, impulsionando restaurantes, lanchonetes, transporte local e o turismo cultural da região.
Grandes nomes e a causa animal nos bastidores
O festival em Cerqueira César reuniu nomes premiados do cinema nacional, como Marcelo Gomes, Milena Castro, Gabriel Arjona e Francis Helena Cozta. A condução do palco ficou a cargo das atrizes Bianca Rinaldi e Francis Helena Cozta, ao lado do ator e influenciador Fernando Félix, mostrando que a união entre profissionalismo e engajamento é capaz de viabilizar projetos de alto impacto social.
Nos bastidores, o evento carregou outra bandeira universal: a proteção e defesa dos direitos dos animais. Quase toda a equipe de produção do festival, além de cineastas convidados como Tico Barreto (diretor do aclamado filme Desertores), é composta por ativos defensores da causa animal. O sucesso do festival prova que o fomento à cultura e a conscientização social caminham juntos, desenhando um modelo de entretenimento ético, sem maus-tratos a animais e totalmente voltado ao desenvolvimento humano, ao contrário de grandes rodeios, regados a cerveja e completamente vazios em conteúdo e retorno cultural.