Artigo: Inteligência Artificial nas empresas: quem está auditando os algoritmos?

Por Kátia Lema Perez, diretora do Instituto Brasileiro de Auditoria e Compliance (Ibrac)

Por ALINE PORFFIRIO
7 Min

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A Inteligência Artificial deixou de ser uma ferramenta restrita aos departamentos de tecnologia. Hoje, ela está presente em decisões de contratação, concessão de crédito, atendimento ao cliente, análise de riscos, monitoramento de operações e até mesmo em processos de compliance.

O avanço é inegável. Empresas de todos os setores têm buscado soluções baseadas em IA para aumentar a produtividade, reduzir custos e melhorar a tomada de decisão. No entanto, enquanto a adoção dessas ferramentas cresce em ritmo acelerado, uma pergunta importante ainda recebe pouca atenção: quem está auditando os algoritmos?

A confiança depositada na Inteligência Artificial não pode ser confundida com ausência de supervisão. Por trás de cada sistema existem dados, critérios, parâmetros e modelos que influenciam diretamente os resultados entregues. Quando esses processos não são adequadamente monitorados, surgem riscos que vão desde falhas operacionais até problemas regulatórios, jurídicos e reputacionais.

Um algoritmo treinado com dados inadequados pode reproduzir vieses existentes na sociedade. Uma ferramenta de análise automatizada pode gerar decisões equivocadas sem que seus usuários compreendam exatamente os critérios utilizados. Da mesma forma, sistemas que processam grandes volumes de informações pessoais precisam atender rigorosamente às exigências de privacidade e proteção de dados.

Nesse contexto, compliance, auditoria e governança assumem um papel ainda mais estratégico. 

Historicamente, as áreas de compliance foram responsáveis por garantir a conformidade das organizações com leis, regulamentos e normas internas. Com a chegada da Inteligência Artificial, essa responsabilidade se amplia. Não basta verificar apenas a conformidade dos processos tradicionais; torna-se necessário avaliar também os riscos associados às tecnologias que influenciam decisões corporativas.

A auditoria, por sua vez, ganha uma nova dimensão. Além de examinar controles financeiros, operacionais e regulatórios, passa a ter o desafio de avaliar a qualidade dos dados utilizados, a transparência dos modelos adotados e a existência de mecanismos capazes de identificar falhas ou desvios nos sistemas inteligentes.

Essa necessidade já vem sendo discutida por órgãos reguladores e entidades internacionais. O debate não gira em torno de limitar a inovação, mas de garantir que ela aconteça de forma ética, transparente e responsável.

Nesse cenário, a regulamentação da Inteligência Artificial não deve ser vista como um obstáculo ao desenvolvimento tecnológico, mas como um instrumento essencial para fortalecer a confiança, a transparência e a responsabilidade no uso dessas ferramentas.

Os riscos de uma IA sem mecanismos adequados de governança são cada vez mais evidentes. Como os algoritmos são desenvolvidos por seres humanos e treinados a partir de grandes volumes de dados, eles podem reproduzir vieses, discriminações e falhas já existentes nas bases utilizadas. Sem controles apropriados, uma decisão automatizada pode negar crédito de forma injustificada, influenciar processos de contratação, gerar discriminação indireta, comprometer a privacidade dos usuários, disseminar desinformação ou produzir decisões sem transparência e possibilidade de contestação. Além disso, a ausência de regras claras aumenta a insegurança jurídica para as organizações que desenvolvem ou utilizam soluções baseadas em Inteligência Artificial.

Diversos países já compreenderam que o desenvolvimento responsável da IA exige marcos regulatórios consistentes. Na Europa, o EU AI Act tornou-se uma das principais referências globais ao adotar uma abordagem baseada em risco, na qual as exigências de controle, documentação e supervisão aumentam conforme o potencial impacto da tecnologia sobre direitos e liberdades individuais. Nos Estados Unidos, embora ainda não exista uma legislação federal abrangente, órgãos reguladores e governos estaduais vêm estabelecendo diretrizes específicas para o uso responsável da tecnologia. Organizações internacionais, como a OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development), também têm publicado princípios voltados à transparência, à prestação de contas e à supervisão humana.

No Brasil, esse debate avança paralelamente à rápida expansão da IA nos setores público e privado. O desafio não é restringir a inovação, mas criar um ambiente de segurança jurídica capaz de estimular investimentos e, ao mesmo tempo, proteger cidadãos, consumidores e trabalhadores.

Nesse contexto, modelos eficazes de governança precisam contemplar elementos como transparência algorítmica, gestão de riscos, supervisão humana, proteção de dados pessoais, responsabilização por danos, auditorias independentes e mecanismos que permitam compreender e explicar decisões automatizadas.

As organizações que compreendem essa realidade saem na frente. Elas não enxergam a governança como um obstáculo à transformação digital, mas como um elemento fundamental para sua sustentabilidade. Afinal, quanto mais relevantes forem as decisões apoiadas por Inteligência Artificial, maior deverá ser o nível de controle e supervisão aplicado a essas ferramentas.

A boa governança exige que as empresas conheçam os riscos envolvidos, estabeleçam critérios claros para utilização da tecnologia, mantenham processos de monitoramento contínuo e definam responsabilidades sobre as decisões tomadas com apoio de sistemas automatizados.

A questão central não é se a Inteligência Artificial deve ser utilizada. Ela já faz parte do ambiente corporativo e continuará ampliando sua presença nos próximos anos. O verdadeiro desafio está em garantir que sua utilização ocorra dentro de princípios sólidos de ética, transparência, conformidade e responsabilidade, e isso se dá através de uma supervisão humana qualificada.

Em um cenário cada vez mais orientado por dados e automação, o papel da auditoria e do compliance deixa de ser apenas acompanhar as mudanças. Ele passa a ser essencial para assegurar que a inovação aconteça de forma segura, confiável e alinhada aos valores das organizações.

O futuro pertence às empresas que conseguirem equilibrar tecnologia e governança. E esse equilíbrio começa com uma pergunta simples, mas fundamental: quem está auditando os seus algoritmos?

 

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