Brasil abre consulta pública sobre sua Estratégia Nacional de Segurança da Informação
Cientista da Computação e professora de cibersegurança na UFMG alerta para imprecisões conceituais na minuta que podem comprometer a governança digital do país
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Está aberta até o dia 15 de junho a consulta pública sobre a minuta de decreto que institui a Estratégia Nacional de Segurança da Informação (E-SegInfo) e o Sistema Integrado de Segurança da Informação (SISInfo), iniciativa da Secretaria de Segurança da Informação e Cibernética (SSIC/GSI/PR). Para a cientista da computação, Michele Nogueira, PhD pela Universidade de Sorbonne e professora na UFMG, essa é uma oportunidade que não deveria passar despercebida.
Ao analisar a proposta, Michele Nogueira reconheceu avanços importantes nas áreas de governança, capacitação, gestão de riscos e coordenação institucional. Mas também identificou um ponto crítico que, em sua avaliação, pode comprometer a efetividade de toda a política pública: a imprecisão na distinção entre os conceitos de segurança da informação e cibersegurança ao longo do texto.
“Apesar das definições formais de Segurança da Informação e Cibersegurança estarem definidos no Artigo 6º, Incisos I e II, ao longo do texto os dois conceitos se misturam de forma inconsistente. Em alguns deles, a cibersegurança aparece como subconjunto da segurança da informação (o que grande parte da acadamia considera como sendo o contrário); em outros, como uma área paralela e independente; em outros ainda, como elemento complementar sem hierarquia claramente estabelecida”, enumera Michele Nogueira.
Segundo a especialista, essa não é uma discussão meramente semântica. A falta de clareza conceitual pode gerar:
• Sobreposição de responsabilidades entre órgãos e equipes distintas;
• Conflitos de governança na implementação das diretrizes;
• Dificuldades operacionais para órgãos públicos que precisam alinhar suas estruturas internas de segurança;
• Desalinhamento entre as áreas dentro dos ministérios e entidades federais.
A estratégia: o que está em jogo
A E-SegInfo e o SISInfo são aplicáveis aos órgãos e entidades do Poder Executivo Federal, com possibilidade de adesão voluntária pelos demais Poderes e entes federativos. A iniciativa chega em um momento crítico: o Brasil vive acelerada transformação digital, aumento das ameaças cibernéticas e crescente dependência tecnológica em serviços públicos essenciais.
A E-SegInfo se organiza em quatro eixos temáticos:
• Cultura e educação:formação de uma mentalidade de segurança em toda a administração pública;
• Dados e informações sensíveis: proteção de ativos de informação críticos do Estado;
• Governança e recursos: estrutura institucional e financeira para sustentabilidade da política;
• Cooperação nacional e internacional: articulação entre entes federativos e parceiros globais.
Já o SISInfo organiza as atividades de segurança da informação no setor público como sistema estruturador, tendo a SSIC como órgão central e articulando órgãos setoriais, seccionais, correlatos e federados, além de uma Comissão de Coordenação.
Por que participar da consulta pública?
A própria minuta reconhece, em seu Art. 9º, que as revisões da E-SegInfo deverão ser subsidiadas por agentes públicos, representantes da sociedade civil, do setor acadêmico e do setor privado. A consulta pública é o primeiro e mais amplo espaço dessa construção compartilhada.
Para Michele Nogueira, as políticas públicas duradouras precisam começar por uma arquitetura conceitual sólida e coerente. “A consulta pública é exatamente o espaço adequado para esse debate, por isso convido pesquisadores, profissionais, gestores públicos, entidades da sociedade civil e representantes do setor produtivo a analisarem a proposta e contribuírem com sugestões objetivas”, finaliza ela.
Sobre a pesquisadora Michele Nogueira
Michele Nogueira é cientista da computação atuando nas áreas de redes de computadores, segurança de redes e privacidade dos dados. Tem doutorado em Ciência da Computação pela Sorbonne Université - UPMC/LIP6, Paris, França (2009) e realizou Pós-doutorado na Universidade Carnegie Mellon (CMU), Pittsburgh, EUA, com bolsa de Estágio Pós-Doutoral no Exterior CAPES, Programas Estratégicos - DRI.
Foi membro titular do Conselho Nacional de Proteção dos Dados Pessoais e da Privacidade (CNPD) da Autoridade Nacional de Proteção dos Dados Pessoais (ANPD).
É membro sênior da Association for Computing Machinery (ACM) e do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE) em reconhecimento à sua liderança e contribuições técnicas e profissionais.
É professora associada do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e é membro permanente do programa de Pós-graduação em Ciência da Computação.
Dedica-se a pesquisas voltadas à cibersegurança e à resiliência de redes e comunicação com aplicações em vários setores da sociedade.
Serviço:
Link para participar da Consulta Pública: https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/estrategia-seginfo
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