O que as tendências revelam sobre liderança em 2026

Conheça a Síndrome do Insight Acumulado, conceito nomeado pela ensaísta de tendências e negócios Roberta da Trindade

Por ANDRé LOBO
7 Min

O que as tendências revelam sobre liderança em 2026
Na imagem Roberta da Trindade

"A maioria das organizações já entende o que precisa mudar. O desafio está em agir com base nesse conhecimento." Future of Work 2026: From Insight to Courage, HR World Summit, jan. 2026. 

Existe uma convergência acontecendo no cenário global de liderança que vai muito além de uma tendência isolada. Pesquisas independentes, realizadas em contextos e geografias diferentes, chegam à mesma conclusão: o problema central das organizações em 2026 não é técnico, não é de dados e não é de falta de estratégia. É de ação.

O relatório Future of Work 2026, produzido pelo HR World Summit a partir de pesquisas globais e diálogos com CHROs ao longo de 2025, sintetiza essa realidade com precisão: as organizações sabem o que precisa mudar. A inteligência artificial avança, os modelos de talento evoluem, as expectativas de liderança se transformam. E mesmo assim o progresso é irregular, não porque líderes faltam com dados ou frameworks, mas porque mudanças reais exigem confrontar estruturas de poder, redesenhar o trabalho e tomar decisões com consequências reais.

O que o relatório global está descrevendo tem um nome:

É a Síndrome do Insight Acumulado em escala global, quando a empresa, leia-se o líder, sabe o que tem que fazer, mas não faz, conceito cunhado pela ensaísta de tendências em negócios e comportamento, Roberta da Trindade, a partir de suas observações em consultoria e aprofundado pelo estudo da gestão do conhecimento no mestrado em Administração para Organizações Inovadoras.

A convergência que ninguém está nomeando

Três forças estão se encontrando ao mesmo tempo, e a interseção delas é o território onde a coragem se torna a competência mais estratégica de todas.

A primeira força é a aceleração tecnológica. A inteligência artificial não está apenas mudando processos, está mudando a natureza das decisões humanas. Quando máquinas processam dados com velocidade e precisão muito superiores às nossas, o diferencial do líder deixa de ser analítico e passa a ser decisório. Segundo o relatório SHRM 2026 State of the Workplace, que ouviu mais de 2.000 trabalhadores e 1.856 profissionais de RH nos Estados Unidos, liderança eficaz e cultura organizacional continuam sendo o principal motor de resiliência das organizações, mesmo com a aceleração da adoção de IA.

A segunda força é a escassez de lideranças capazes de agir. O Kestria Global Leadership Barometer 2025, estudo conduzido com executivos sênior de múltiplas regiões do mundo, identificou que as três competências mais críticas para o futuro são adaptabilidade à incerteza, inteligência emocional e a capacidade de desafiar ideias e tomar decisões difíceis. As três exigem, em graus diferentes, a mesma coisa: coragem de agir quando o resultado não está garantido.

A terceira força é o excesso de informação sem transformação em decisão, exatamente o que Nonaka e Takeuchi descrevem na teoria da criação do conhecimento organizacional. Em "The Knowledge-Creating Company" (Oxford University Press, 1995), os pesquisadores mostram que o conhecimento só gera valor quando é convertido em ação. Acumular informação sem essa conversão não é aprendizado organizacional, é estagnação.

A convergência das três forças

Quando a tecnologia acelera as decisões, quando líderes capazes de agir se tornam escassos e quando o conhecimento acumulado não se converte em movimento, o resultado é uma organização paralisada no momento em que mais precisa avançar. É nessa interseção que a coragem deixa de ser virtude pessoal e se torna competência estratégica.

O que os números revelam

O relatório SHRM 2026 CHRO Priorities and Perspectives, que ouviu 129 CHROs de organizações de múltiplos setores, revelou que 46% deles apontam desenvolvimento de liderança e gestores como prioridade máxima para 2026, pelo segundo ano consecutivo no topo da lista. Não são tecnologia, não são processos, não são ferramentas. São pessoas capazes de liderar outras pessoas em contextos de incerteza.

O mesmo relatório aponta que 72% dos profissionais de RH relatam que os trabalhadores têm expectativas mais altas dos empregadores do que tinham antes, e que 91% dos trabalhadores que acreditam que sua organização atende bem às suas necessidades reportam satisfação no trabalho, contra apenas 44% naquelas onde a liderança é percebida como ineficaz. A qualidade da liderança não é um dado de RH. É um dado de negócio.

O que isso significa na prática

Estamos vivendo um momento em que o diferencial competitivo das organizações passou a depender menos de quanto elas sabem e mais de quanto elas conseguem transformar o que sabem em decisão. A IA processa dados com uma eficiência que nenhum humano vai superar. O que a IA não faz é ter a conversa difícil, assumir a responsabilidade de uma decisão impopular ou sentir o sinal que o corpo manda antes da mente formular a análise.

O futuro do trabalho não está ameaçando os líderes que agem. Está eliminando a relevância dos que não agem.

"Em um mundo que provavelmente não vai ficar mais simples, a qualidade da liderança será cada vez mais o diferenciador que mais importa." RHR International, A View to the Future: Leadership Trends in 2026 and Beyond, jan. 2026

As tendências apontam para o mesmo lugar, o cenário está montado. O que falta, nas organizações e nos líderes,é a coragem como competência operacional, treinável e observável, não como traço de personalidade que se tem ou não se tem, afirma Roberta.

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LEONEL DA TRINDADE
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