Abril Azul: diagnóstico precoce não é rótulo, é ponto de partida

Por JúLIA BOZZETTO
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Abril chega tingido de azul para lembrar uma pauta que deveria atravessar o ano inteiro: o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A campanha cumpre um papel relevante de conscientização, mas ainda esbarra em um problema estrutural da saúde no Brasil, a dificuldade de acesso a um diagnóstico precoce e, sobretudo, correto.

Fala-se muito em “identificar cedo”, mas pouco se discute o que, de fato, significa identificar bem. O diagnóstico de TEA não é feito por um único teste, tampouco se resume a uma lista de comportamentos observados de forma isolada. Trata-se de um processo clínico cuidadoso, que envolve escuta qualificada, avaliação do desenvolvimento e, principalmente, a capacidade de diferenciar o autismo de outras condições que podem apresentar sinais semelhantes.

Na prática, isso é determinante. Crianças com atrasos de linguagem, dificuldades de interação social, desatenção ou rigidez comportamental podem, à primeira vista, levantar suspeita de autismo. No entanto, esses sinais também estão presentes em quadros como TDAH, transtornos de linguagem, ansiedade, depressão infantil e até em contextos de privação ambiental. É nesse ponto que o diagnóstico diferencial deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser um divisor de águas na vida da criança e da família.

Um diagnóstico impreciso pode levar a intervenções inadequadas, atrasando o desenvolvimento e gerando sofrimento desnecessário. Por outro lado, quando há clareza diagnóstica, abre-se um caminho mais assertivo: terapias direcionadas, estratégias educacionais específicas e orientação familiar consistente. Em outras palavras, o diagnóstico correto organiza o cuidado.

O tempo, nesse contexto, é um fator crítico. Sabemos, a partir de evidências robustas, que intervenções iniciadas nos primeiros anos de vida têm maior impacto na comunicação, na autonomia e na qualidade de vida de crianças com TEA. O cérebro em desenvolvimento é mais plástico, mais responsivo às intervenções. Perder essa janela por dúvidas diagnósticas mal conduzidas ou por falta de acesso a avaliação especializada é um custo alto e evitável.

Mas é preciso fazer um alerta: defender o diagnóstico precoce não significa incentivar diagnósticos apressados. Existe uma linha tênue entre agilidade e precipitação. A pressão por respostas rápidas, muitas vezes alimentada pela ansiedade legítima das famílias, pode resultar em rotulações frágeis, baseadas em avaliações superficiais. E, uma vez estabelecido, um rótulo tende a orientar e limitar a forma como a criança é vista e cuidada.

Por isso, mais do que ampliar o número de diagnósticos, é urgente qualificar esse processo. Isso passa por formação profissional adequada, uso de instrumentos validados, trabalho interdisciplinar e, principalmente, experiência clínica em desenvolvimento infantil. Diagnosticar é, antes de tudo, compreender.

A campanha Abril Azul também precisa avançar nesse sentido: sair do campo exclusivo da conscientização e entrar de forma mais incisiva na discussão sobre qualidade diagnóstica. Não basta saber que o autismo existe; é necessário garantir que ele seja identificado com responsabilidade.

Para as famílias, o recado é claro: diante de sinais de alerta, procurar avaliação especializada o quanto antes é fundamental. Mas é igualmente importante buscar profissionais que tenham experiência em diagnósticos diferenciais, que conduzam uma investigação ampla e que estejam abertos a revisar hipóteses ao longo do desenvolvimento.

Para os gestores e formuladores de políticas públicas, o desafio é estrutural. É preciso ampliar o acesso a serviços especializados, reduzir filas e investir na capacitação de profissionais da atenção primária, que muitas vezes são a porta de entrada dessas crianças no sistema de saúde.

Abril Azul deve ser, acima de tudo, um convite à responsabilidade coletiva. Diagnosticar cedo é importante. Diagnosticar certo é indispensável. Entre o tempo e a precisão, não deveríamos ter que escolher.

*Thaís Barbisan é psicóloga e neuropsicóloga especialista em diagnósticos diferenciais.

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