Brasília (DF), 15 de abril de 2026 - Antes do palco, vem o encontro. Antes da partitura, a escuta coletiva. É nesse movimento que se estrutura a Orquestra Espreme a Pitanga, projeto que inicia nova temporada em Brasília com proposta de formação e criação coletiva, aberta a músicos de diferentes níveis de experiência - de iniciantes a instrumentistas com trajetória consolidada.
Mais do que uma orquestra tradicional, o projeto concentra ensaios, formação e apresentações públicas, reunindo músicos em um ambiente de prática, troca e convivência. Ao longo da temporada, a iniciativa se apresenta como espaço de experimentação artística, o que amplia o acesso ao choro e fortalece redes entre músicos.
A Orquestra Espreme a Pitanga se constrói a partir da releitura da expressão popular “chorar as pitangas”, utilizada desde o século XIX para designar o ato de extravasar emoções. Na proposta, essa noção é deslocada para o campo da criação coletiva, tendo o choro tradicional - reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN - como linguagem central, associado a ritmos populares como, frevo, funk, pagodão baiano, maracatu, entre outros gêneros em arranjos fora do convencional.
Com origem em experiências abertas de rua, entre ensaios e cortejos realizados em 2025, a orquestra passa a se estruturar como proposta contínua, voltada à democratização do acesso à música instrumental brasileira e à ampliação da presença de artistas LGBTIQAP+ nesse campo.
A ideia de “espremer a pitanga” não está ligada à lamentação, mas à transformação da emoção em criação - um deslocamento do gesto íntimo para o fazer coletivo. “Ao trazer o choro para esse contexto, criamos um ambiente de troca e pertencimento, em que diferentes trajetórias podem se encontrar”, afirma Caio Handel, diretor artístico da Orquestra Espreme a Pitanga e criador da Drag queen instrumentista e maestrina Dalila.
Para o músico, o foco do trabalho não está apenas no resultado final, mas no que se constrói ao longo do percurso. “Existe um campo de construção que passa pela escuta, pela inclusão e pela convivência. A orquestra nasce desse processo, e não apenas da ideia de performance”, acrescenta.
Uma orquestra em construção e em movimento A Espreme a Pitanga parte de uma base de 12 músicos, mas não se fecha nela. Ao contrário: o desenho do projeto pressupõe expansão. A expectativa é que a formação cresça a partir da adesão espontânea de participantes, podendo chegar a 30 ou até 40 integrantes, em um formato que se ajusta à presença, ao repertório e às possibilidades do grupo.
A proposta é aberta também em sua formação instrumental: cordas, sopros, percussões e teclas convivem no mesmo espaço, permitindo que diferentes trajetórias e sonoridades componham a orquestra.
Para sustentar essa participação, a orquestra prevê 10 bolsas de ajuda de custo, no valor de R$ 80 para cada ensaio, com prioridade para pessoas LGBTQIAPN+, mulheres, pessoas pretas e pardas e moradores de regiões periféricas.
Essa escolha insere a diversidade como elemento estruturante do grupo e do processo de criação, com a presença de uma maestrina drag à frente da condução musical. A ideia é construir junto, a partir das possibilidades de quem chega e das diferentes formas de tocar. “Quando a gente fala de uma orquestra popular, estamos falando também de quem pode ocupar esse espaço. Existe um movimento de ampliar esse campo, de trazer outras presenças, outras narrativas e outras experiências para dentro da música. Isso impacta diretamente o som, o repertório e a forma como o público se reconhece ali”, completa o diretor artístico.
Entre a música, a pesquisa e criação artística Com atuação que articula música, educação e pesquisa em gênero e diversidade, Caio Handel desenvolve trabalhos que conectam linguagem artística e reflexão social. Na cena artística, vive na pele a personagem drag queen maestrina Dalila, integrando criação, performance e presença cênica em um percurso que atravessa diferentes linguagens.
Essa intersecção aparece diretamente na concepção da Espreme a Pitanga. “A presença da maestrina drag não é um adereço, mas parte da própria linguagem do projeto. Ela amplia a escuta e propõe outras formas de estar em cena”, explica Drag Dalila.
A maestrina conta que, em vez da batuta, usa um leque. Em lugar da formalidade tradicional, aposta em gestos mais livres e sinais para orientar o grupo. A presença da maestrina drag não é um adereço, mas parte da própria linguagem do projeto. Essa escolha também se insere em uma dimensão de representatividade. “Como drag queen, também afirmo a presença LGBTQIA+ na música instrumental e no universo do choro, que historicamente é muito marcada por estruturas mais rígidas e predominantemente masculinas. A drag, nesse lugar, mostra que pode ocupar também espaços de condução, criação e liderança musical”, expressa.
Formação como ponto de partida A etapa formativa do projeto se iniciou com a Oficina de Ritmos Brasileiros, ministrada pela percussionista Fernanda Vitória, nos dias 13 e 15 de abril, às
14h, no Espaço Jovem de Expressão, em Ceilândia. A atividade propõe uma imersão prática no pandeiro, explorando ritmos, levadas e variações da música brasileira em uma abordagem acessível a diferentes níveis de experiência.
Entre as duas datas, no dia 14 de abril, também às 14h, o projeto realizou o encontro Vozes Dissidentes, no Distrito Drag, no Plano Piloto, reunindo workshop de canto e roda de conversa conduzidos por Flor Furacão. A proposta amplia o percurso formativo ao incorporar reflexão e troca a partir de vivências e trajetórias diversas.
Do processo ao encontro com o público Após a etapa formativa, o projeto avança para os ensaios de qualificação da orquestra, realizados nos dias 28 e 30 de abril e 5 e 7 de maio, sempre às 19h, estruturando coletivamente o repertório e a dinâmica do grupo.
A programação inclui apresentações públicas ao longo de maio, em diferentes regiões do Distrito Federal. A orquestra se apresenta no dia 9, no Beco Cultural, em Taguatinga; no dia 15, no Centro Cultural de Planaltina; e no dia 16, em formato de concerto e cortejo no Infinu, no Plano Piloto. A temporada se encerra com uma apresentação em Ceilândia, prevista para o dia 23 de maio, na Casa do Cantador.
Ao reunir formação, ensaios e apresentações em diferentes regiões, o projeto propõe uma experiência compartilhada, em que a prática musical se constrói no encontro entre os participantes e os territórios por onde passa.
A Orquestra Espreme a Pitanga nasce com um compromisso com a acessibilidade e com a ampliação de acesso. Isso passa por garantir recursos como Libras e audiodescrição, mas também por pensar a comunicação, os espaços e a própria construção do grupo de forma mais aberta. “É uma tentativa de reorganizar o fazer musical a partir de outras lógicas”, afirma o diretor Caio Handel.
A iniciativa é realizada com apoio do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC) e conta com produção da Fakhouri Produções Artísticas, liderada pelo músico Nelson Latif.
Serviço
Orquestra Espreme a Pitanga | participação aberta Inscrições: até 15 de abril de 2026
Formato: 4 ensaios + 4 apresentações
Ensaios: última semana de abril e primeira semana de maio, às 19h, no Plano Piloto
Inscrições para fazer parte do projeto:
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdzqyDEFSg1qlxImbG1wu7lIBr6tvB-z0QaKz_zW-b3nB2LRw/viewform Ações formativas Oficina de Ritmos Brasileiros
Datas: 13 e 15 de abril
Horário: 14h
Local: Espaço Jovem de Expressão
Endereço: Praça do Cidadão, s/n – QNM 18/20, Ceilândia Norte, Brasília – DF
Inscrições: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScuN2e5_l7MPv_V4Sf11dGb7927euRhcNh3spfCKh9gNWHZXA/viewform
Vozes Dissidentes (workshop de canto + roda de conversa) Com: Flor Furacão
Data: 14 de abril
Horário: 14h
Local: Distrito Drag (Brasília/DF) Setor Comercial Sul (SCS), Quadra 2, Bloco C, Edifício Jamel Cecílio, 7º andar, Asa Sul, Brasília - DF, CEP 70302-905
Ensaios Datas: 28 e 30 de abril | 5 e 7 de maio
Horário: 19h
Local: Plano Piloto (Brasília/DF)
Endereço: Asa Sul Teatro do Escola Parque EQS 313/314 - Asa Sul, Brasília - DF
Apresentações 9 de maio - Beco Cultural, Taguatinga | Endereço: St. B Sul QSB 13 - Taguatinga Sul, Brasília – DF
15 de maio - Complexo Cultural de Planaltina, 19h | Endereço: Avenida Uberdan Cardoso, Setor Administrativo, Lote 02, Planaltina-DF
16 de maio - Infinu (concerto e cortejo), Plano Piloto, 16h | Endereço: CRS 506 Bloco A Loja 67 ao lado Praça das Avós, Asa Sul
23 de maio (a confirmar) - Casa do Cantador, Ceilândia