Quando a inovação na aviação começa no solo
*Por Bruno Damasceno, CEO da Rowbotic
Divulgação
Durante décadas, falar de inovação na aviação significou olhar para o céu. Motores mais eficientes, aeronaves mais leves, novos materiais e sistemas embarcados cada vez mais inteligentes concentraram os investimentos e a atenção de um setor historicamente movido por avanços tecnológicos complexos e de alto risco. No entanto, uma transformação silenciosa começa a reposicionar o eixo da inovação para um espaço menos óbvio, mas igualmente estratégico: o solo.
Na aviação executiva, a incorporação de robótica nas operações de pátio e hangar começa a ganhar relevância como um vetor concreto de eficiência, segurança e sustentabilidade. Trata-se de uma mudança de perspectiva importante. Em vez de concentrar esforços apenas no que voa, operadores passam a olhar para processos historicamente manuais e intensivos em mão de obra, buscando ganhos estruturais que impactam diretamente a competitividade do setor.
A lógica por trás desse movimento é clara. Ao automatizar atividades operacionais, é possível reduzir custos fixos, aumentar a previsibilidade e diminuir a dependência de estruturas complexas de coordenação. Um exemplo emblemático está no reboque de aeronaves, tarefa que tradicionalmente exige múltiplos profissionais, tratores a combustão e alto grau de sincronização. Com soluções robotizadas de reboque elétrico, esse processo pode ser conduzido por um único operador, com controle remoto e menor complexidade operacional.
Os resultados começam a ser mensuráveis. Tecnologias desenvolvidas no Brasil já apontam potencial de redução de até 30% nos custos operacionais de hangares. Em termos práticos, operações que antes custavam cerca de R$ 810 por hora podem cair para aproximadamente R$ 567. Em escala, essa diferença altera de forma relevante a estrutura financeira de operadores de aviação executiva, especialmente em um segmento no qual eficiência operacional e otimização de ativos são determinantes para a rentabilidade.
Impacto ESG
Limitar o debate apenas à redução de custos seria, no entanto, uma leitura incompleta. A agenda ESG se tornou central para a aviação, pressionada por compromissos de descarbonização e maior transparência ambiental. Embora grande parte das discussões ainda esteja concentrada no combustível sustentável de aviação (SAF) e em novas arquiteturas de propulsão, existe um campo de impacto imediato muitas vezes negligenciado: as operações em solo.
A eletrificação aliada à robótica traz ganhos ambientais tangíveis. Estimativas indicam que tecnologias desse tipo podem reduzir cerca de 30 kg de CO2 por hora por hangar, o que pode representar até 86 toneladas de emissões evitadas por ano. Essa redução impacta diretamente no CORSIA, onde cada aeronave deve emitir apenas uma quantidade de CO2 limitada. Em um setor cada vez mais cobrado por metas ambientais concretas, a capacidade de gerar indicadores mensuráveis sem depender de mudanças estruturais complexas na frota aérea representa uma vantagem competitiva relevante.
A segurança também emerge como um componente crítico dessa transformação. A aviação é, por definição, uma indústria avessa ao risco, mas isso não elimina a exposição a incidentes, especialmente em atividades realizadas em solo. No ar contamos com pilotos habilitados pela ANAC para exercerem sua função, já na operação terrestre a movimentação é feita por mão de obra não depende de uma certificação, portanto, nos deparamos com um alto valor agregado e responsabilidade. Manobras em hangares, acoplamento de aeronaves e movimentações em espaços restritos exigem precisão milimétrica e alto nível de atenção. Ao reduzir o contato manual direto e incorporar sistemas de controle remoto, a robótica diminui a exposição do operador e reduz significativamente a probabilidade de colisões e danos, preservando não apenas ativos de alto valor, mas também reputação e confiabilidade operacional.
Outro impacto relevante, embora menos evidente à primeira vista, está na otimização do espaço. Hangares são ativos de alto valor e cada metro quadrado influencia diretamente a capacidade de geração de receita. Sistemas robotizados mais precisos, capazes de realizar movimentos com maior controle e rotação completa, indicam ganhos de até 30% no aproveitamento da área interna. Há ainda um impacto operacional direto: maior impacto pois com o Rebocador um hangar que antes operava com 15 aeronaves agora passa a ser 19, resultando em 30% de lucro direto e maior responsabilidade para o hangar. Em mercados onde a expansão física é limitada ou economicamente inviável, esse ganho de eficiência espacial pode representar uma vantagem competitiva decisiva.
O avanço da robótica na aviação executiva também sinaliza uma mudança no perfil tecnológico do setor. Tradicionalmente dependente de grandes fabricantes globais e ciclos longos de inovação, a indústria começa a abrir espaço para soluções mais ágeis, muitas vezes desenvolvidas localmente e com maior capacidade de adaptação às necessidades específicas dos operadores. Esse movimento contribui para diversificar o ecossistema de inovação e posiciona novos players como protagonistas em nichos estratégicos da cadeia de valor.
Naturalmente, desafios permanecem. A adoção de novas tecnologias em um segmento altamente regulado exige validação rigorosa, adaptação cultural e, em muitos casos, revisão de processos consolidados ao longo de décadas. Ainda assim, a combinação de pressão por redução de custos, exigências ambientais crescentes e necessidade de maior segurança cria um ambiente favorável à aceleração dessa transformação.
O que se desenha é uma mudança de paradigma. A eficiência da aviação do futuro não será definida apenas pelo desempenho em voo, mas também pela inteligência aplicada às operações em solo. Se, por muito tempo, a inovação esteve associada ao que acontece acima das nuvens, agora é entre hangares e pátios que parte relevante do futuro do setor começa a ser construída. E, ao que tudo indica, essa mudança já deixou de ser tendência para se tornar realidade estratégica
Na parte de otimização de espaço, eu acredito que esse é o maior impacto pois com o Rebocador um hangar que antes operava com 15 aeronaves agora passa a ser 19, resultando em 30% de lucro direto e maior responsabilidade para o hangar.
*Bruno Damasceno é empresário metalúrgico em Sorocaba e líder da Codex, que opera no modelo Manufacturing as a Service (MaaS) e da Rowbotic, empresa que aplica robótica e automação ao setor aeronáutico.
Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a): LUIZA FIDELIS LUZ
luiza.fidelis@vcrp.com.br