O rio é o primeiro arquiteto da cidade, antes das avenidas, praças, prédios, pois é a água que desenha seu espaço físico e simbólico. É o seu curso que nos mostra toda a tradição civilizacional desde o Éden – com o Gion e Fison, o Nilo no Egito, o Ganges na Índia, o Tâmisa em Londres, o Sena em Paris e, por que não, o Meia Ponte em Goiânia ou o córrego Botafogo, que cada vez mais insiste em retomar seu papel físico e simbólico na sociedade à contragosto da infraestrutura urbana goianiense.
Com uma nascente no Jardim Botânico, o córrego Botafogo recebe três subafluentes: o Sumidouro, o Areião e o Capim-Puba. Seu trecho urbano tem cerca de 10,93 quilômetros e entre os anos 80/90 passou por uma obra de canalização que deu origem à Marginal Botafogo, com 14 quilômetros de extensão, projetada com o paradigma daquele tempo: “mobilidade centrada no automóvel”. O desnível total entre a nascente e o ponto de deságue é de aproximadamente 143 metros – um gradiente baixo com escoamento lento. Assim, a canalização eliminou a infiltração, concentrou vazões e criou um corredor de risco permanente: o que deveria ser uma solução virou um bolsão de enchentes.
Nesse contexto, em 2021, o governo do Estado de Goiás iniciou um trabalho de reestruturação da governança metropolitana com uma nova política de mobilidade, alinhado com as melhores práticas no mundo. Os resultados já são uma realidade na vida do povo: BRTs funcionando, nova frota, metronização, menos tempo perdido no trânsito e melhor qualidade de vida. Hoje, temos um solo fértil para colocar Goiânia no caminho do progresso e elevar nossa capital à estatura do povo goiano: resiliente, trabalhador e capaz de enfrentar com técnica e coragem grandes desafios, como a mobilidade urbana e a baixa permeabilidade da cidade. Contudo, ainda falta enfrentar esse gargalo da Marginal Botafogo.
Em vista disso, a revisão “Serviços ecossistêmicos de rios urbanos: uma revisão sistemática” demonstra em 118 estudos que a revitalização de rios urbanos é essencial na mitigação de enchentes. Outro estudo chamado “De volta à superfície” compara diversas intervenções em rios urbanos de sucesso em outros países e aponta a urgência da descanalização para restaurar a função hidrológica natural dos rios e mitigar inundações. A China, por sua vez, tem avançado no conceito de Cidade Esponja, já implementado em várias cidades. A lógica é simples: a cidade precisa voltar a absorver água e não apenas empurrá-la para um canal que não dá conta.
Diante deste dilema, a história e a sabedoria popular do homem do campo nos mostra que há duas posturas possíveis: cooperar com a natureza ou enfrentá-la e aguentar as consequências. Por isso, além de reconciliar infraestrutura e meio ambiente é necessário restaurar a harmonia entre pessoas, cidade e natureza e devolver ao Botafogo seu papel funcional e simbólico na cidade de Goiânia. Se um rio bem tratado pode ser uma benção, um maltratado pode se tornar uma maldição.
Cassiano de Brito Rocha é mestre em Ciência Sociais Aplicadas e Humanidades e integrante do Mova-se Fórum de Mobilidade
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CAROLINA OLIVEIRA DE ASSIS
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