Mostra "Pagã" reflete a força ancestral das mulheres ligadas à natureza
Por meio da arte, Kelly S. Reis aborda o protagonismo feminino nas espiritualidades afro-indígenas e o estigma em torno dos saberes da natureza
PorMARIANA MASCARENHAS•
4 Min
Foto: Tamara dos Santos
Em cartaz no SESC Madureira, no Rio de Janeiro, até o dia 12 de outubro, a exposição Pagã, da artista visual Kelly S. Reis, propõe uma imersão sensível e poderosa nas espiritualidades afro-indígenas, com destaque para a relação entre mulheres, natureza e saberes ancestrais. Com mais de 40 obras entre pinturas, mural e esculturas em latas recicladas, a mostra é um manifesto contra a intolerância religiosa, mas também uma celebração da diversidade espiritual brasileira e do protagonismo feminino nesse universo.
“Desde sempre, as mulheres mantêm uma conexão com a natureza. O conhecimento sobre ervas, chás, banhos, raízes... tudo isso era transmitido entre gerações, mas acabou sendo estigmatizado”, afirma Kelly. Segundo ela, esse saber foi descredibilizado pelas estruturas patriarcais e religiosas que viam qualquer prática intuitiva ou espiritual como “bruxaria”. “Mesmo com a comprovação científica dos efeitos calmantes de muitas plantas, as mulheres que usam esses recursos continuam sendo marginalizadas”, completa.
As obras de Pagã revelam figuras femininas e andróginas cercadas por elementos simbólicos como folhas, serpentes, flechas, fogo e lua em uma estética que mistura arte e espiritualidade. Para Kelly, esses elementos são uma forma de resistência frente às religiões institucionalizadas que, historicamente, associaram símbolos afro-indígenas ao mal. “É preciso abrir um diálogo sobre o preconceito contra as culturas que formam a nossa base enquanto povo. A natureza não é coisa ruim. Os orixás, por exemplo, são natureza: Oxum é o rio, Xangô é a pedra, Iansã é o vento. Isso não é demoníaco, é sabedoria ancestral.”
A artista, que vem de uma família afro-indígena e cresceu cercada por práticas tradicionais, relata que sua avó benzedeira em Minas Gerais inspirou parte da mostra, especialmente a série Raiva Ancestral. “Ela fazia chá para tudo. Era amorosa, mas também carregava a raiva de tantas mulheres que vieram antes: raiva da imposição religiosa, do apagamento, da rejeição. Minha arte fala sobre essa força, essa raiva que é também resistência.”
Com curadoria de Maria Luiza Menezes, produção de Letícia Souza e expografia de Karine Guerra, Pagã propõe ainda uma reflexão sobre o sincretismo presente no cotidiano religioso do Brasil, como o uso de ervas em rituais católicos, os ex-votos que, segundo a artista, têm origem africana e a prática das benzedeiras que unem rezas cristãs e saberes populares. “O Brasil precisa reconhecer essa pluralidade. Não existe religião pura. Existe mistura, respeito e cruzamento de saberes. E isso é uma riqueza imensa que precisa ser valorizada”, diz Kelly.
A mostra conta com acessibilidade, incluindo audiodescrição feita pela própria artista. Pagã é um convite à escuta, à conexão espiritual e ao respeito à diversidade com arte, ancestralidade e natureza como guias desse caminho.
Serviço: Exposição Pagã Visitação: 13 de julho a 12 de outubro de 2025 Dias e horários: terça a sexta, das 10h às 19h, sábados, domingos e feriados, das 10 às 16h Local: Sesc Madureira: R. Ewbank da Câmara, 90 - Madureira, Rio de Janeiro - RJ Entrada gratuita Livre para todos os públicos
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