Woke Walking e mercado de trabalho: o perigo de prometer mais do que se entrega

Fenômeno expõe o risco de empresas que adotam narrativas inclusivas sem transformar cultura e práticas internas.

Por ELIANE SANTOS
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Gi Group divulgação

Nos últimos anos, a pressão social por mais diversidade, inclusão e responsabilidade corporativa levou muitas empresas a repensarem suas narrativas institucionais. Não é raro ver campanhas exaltando causas justas, perfis nas redes sociais com selos de apoio a minorias ou comunicados internos reforçando valores como equidade, pertencimento e sustentabilidade. Até aqui, tudo certo. O problema começa quando essa retórica se esgota nas palavras, e não encontra respaldo em ações concretas.
É nesse descompasso que surge o fenômeno do woke walking, uma espécie de marcha performática onde o engajamento social vira mais estética do que ética. O termo, que vem sendo usado para criticar práticas corporativas oportunistas, descreve o ato de “parecer consciente”, sem de fato, agir de forma coerente com esse discurso. Na prática, é como se o branding fosse mais importante do que as estruturas internas. Como se o medo de desagradar ou de perder relevância falasse mais alto que a convicção.
Mas por que isso importa? Porque, para os profissionais, especialmente nas áreas de tecnologia e digital, autenticidade e coerência são valores cada vez mais relevantes. Trata-se de uma geração que não busca apenas um salário ou um crachá, mas um ambiente que respeite a pluralidade e que seja transparente nas suas intenções. Quando uma empresa adota um discurso de inclusão, por exemplo, mas mantém práticas seletivas, hierarquias engessadas ou lideranças pouco preparadas, a decepção costuma ser proporcional à expectativa gerada.
Em um mercado movido por propósito e inovação, o woke walking pode se tornar um risco reputacional silencioso. Não só afasta talentos, mas mina a confiança das equipes, dos investidores e da sociedade. Empresas que insistem em discursos “modulados” para agradar a todos acabam não se conectando verdadeiramente com ninguém. E, em um cenário de alta competitividade por profissionais qualificados, isso é um problema estratégico, não apenas de imagem.
Não se trata, claro, de desincentivar o posicionamento institucional. Pelo contrário. Posicionar-se é urgente. O ponto está em como esse posicionamento se estrutura: se ele vem de dentro para fora ou de fora para dentro; se nasce da escuta ativa e da coerência, ou da conveniência.
É nesse ponto que o trabalho consultivo ganha relevância. Ajudar as empresas a construir caminhos legítimos, que alinhem cultura, estrutura e comunicação, é mais do que uma questão de reputação. É uma estratégia de futuro. Entender os dilemas internos, formar lideranças preparadas, alinhar discurso e prática não acontece por decreto. Requer método, experiência e, principalmente, coragem para sustentar escolhas que talvez não agradem a todos, mas que sejam coerentes com quem a organização é, ou pretende ser.
Num mundo onde todo discurso pode ser rastreado e toda promessa pode ser verificada, a convicção passou a custar caro. E, justamente por isso, tornou-se um dos ativos mais valiosos.
Autora: Juliana Bertoni é headhunter na Qibit, unidade especializada em talentos de tech & digital da Gi Group Holding, multinacional italiana, líder em soluções integradas para capital humano. Possui mais de 10 anos de experiência em recrutamento e seleção, com foco em TI e posições de Executive Search. Fala sobre experiência do candidato e do colaborador; diversidade, equidade e inclusão; e consultoria em recursos humanos.  

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FONTE: Gi Group Holding - Qibit