Ganhar muito não é o mesmo que acumular patrimônio
Como alguém quebra ganhando uma fortuna? Caso do craque da Seleção mostra que salário alto não protege quem ignora plano financeiro
Rafael Ribeiro / CBF
Atletas profissionais de futebol figuram entre as categorias mais vulneráveis economicamente no longo prazo, exatamente pela combinação de renda alta, curta janela de pico de carreira, entorno custoso e ausência de estrutura profissional de gestão patrimonial. Uma pesquisa brasileira com ex-jogadores de alto rendimento mostrou que, para quase 60% deles, a situação econômica piorou após a aposentadoria, e mais de 40% precisaram de ajuda financeira da família para atravessar essa transição. Dados do National Bureau of Economic Research (NBER), dos Estados Unidos, revelam que um em cada seis jogadores da NFL entra em falência em até 12 anos após a aposentadoria, independentemente de quanto ganhou durante a carreira. "A questão não é quanto você ganha. É quanto você enxerga, guarda e decide com método. Esse critério precisa existir antes de o problema aparecer, não depois", resume Roberto Pereira, especialista em planejamento financeiro, investimentos e CEO da ATEX Investimentos, que administra perto de R$ 300 milhões de quase 3 mil clientes. O fenômeno tem nome técnico: "lifestyle inflation". Ocorre quando o padrão de vida cresce na mesma velocidade ou acima da renda, eliminando qualquer margem de construção patrimonial real. No caso de Raphinha, o problema pode ter sido anterior: o padrão de vida cresceu, porém a renda que deveria sustentar esse crescimento estava, em parte, indo para outro lugar. Embora este caso pareça distante da realidade de quem recebe R$ 4 mil por mês, a dinâmica é a mesma. Renda delegada sem controle, gastos que perseguem o que se acredita ganhar e ausência de um plano independente são erros que não exigem mansão europeia para se manifestar. "O maior erro que vejo em pessoas de alta renda é confundir fluxo de caixa com patrimônio. Receber R$ 5 milhões por mês não significa ter R$ 5 milhões acumulados. Se o custo de vida mensal está em R$ 4,9 milhões, a margem de segurança é quase zero. E quando alguma coisa não prevista aparece, não há reserva. O castelo de cartas desmorona", explica Pereira. O especialista aponta três erros recorrentes que independem do tamanho do contracheque. O primeiro é a ausência de reserva de emergência equivalente a pelo menos seis meses de custo fixo. O segundo é a concentração total dos ativos em uma única opção de patrimônio, seja imóvel, seja conta corrente, seja na própria empresa. O terceiro é tomar decisões financeiras com base no emocional do momento, sem método. Para quem tem renda elevada e variável, como atletas, executivos, empresários ou profissionais autônomos bem-sucedidos, a recomendação começa pela separação clara entre patrimônio e fluxo de caixa. O dinheiro que passa pela conta não é o patrimônio. Este é o que sobra depois de tudo pago, investido de forma diversificada e protegido de oscilações, e apenas visível para quem tem o controle real das próprias finanças. "A alta renda exige, proporcionalmente, mais estrutura de gestão patrimonial, não menos. Porque as decisões envolvem valores maiores, os erros são mais impactantes. E o ambiente em volta de quem ganha muito tende a criar uma bolha de validação que dificulta o pensamento crítico sobre dinheiro", observa Roberto Pereira.
Roberto Pereira É especialista em planejamento financeiro e investimentos, com MBA em Investimentos e Private Banking pelo IBMEC/SP. Fundador e CEO da ATEX Investimentos, credenciada à EQI Corretora (Grupo BTG Pactual), que em três anos captou quase 3 mil clientes e perto de R$ 300 milhões sob custódia, com atuação em assessoria de investimentos, planejamento financeiro e gestão de patrimônio.
Roberto Pereira É especialista em planejamento financeiro e investimentos, com MBA em Investimentos e Private Banking pelo IBMEC/SP. Fundador e CEO da ATEX Investimentos, credenciada à EQI Corretora (Grupo BTG Pactual), que em três anos captou quase 3 mil clientes e perto de R$ 300 milhões sob custódia, com atuação em assessoria de investimentos, planejamento financeiro e gestão de patrimônio.
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tarciso.souza@gmail.com