Larissa Nunes encena clássico de Jean Cocteau no Teatroiquè
Com direção de José Fernando Peixoto de Azevedo traz à cena a potência de uma mulher que escolhe sua própria voz
Crédito João Maria Silva Jr
Há momentos em que uma ligação telefônica parece durar uma vida inteira. Há palavras que chegam tarde demais, silêncios que dizem mais do que qualquer conversa e despedidas que, para acontecerem de fato, precisam ser atravessadas. É desse território delicado – entre a ausência e a possibilidade de recomeço – que nasce UMA VOZ HUMANA, nova criação da Sociedade Arminda em cartaz até dia 20 de julho, sexta-feira, sábado e segunda-feira, 21h e domingo, 18h, no Teatroiquè, em São Paulo.
Com direção de José Fernando Peixoto de Azevedo e atuação da atriz e cantora Larissa Nunes, o espetáculo parte do texto homônimo escrito por Jean Cocteau em 1930 para construir uma experiência que escapa às classificações. É teatro, cinema e show ao mesmo tempo. Uma peça-filme em que a música, a imagem e a presença ao vivo se entrelaçam para acompanhar uma mulher no instante em que ela decide abandonar a cena do abandono.
Quase um século depois de sua estreia na Comédie-Française, em Paris, o texto de Cocteau continua atual ao abordar uma condição que parece ter se intensificado na era digital: a estranha solidão que pode existir mesmo em meio à hiperconexão. Se, em 1930, o telefone representava uma revolução tecnológica, hoje ele revela que estar conectado já não garante proximidade, intimidade ou afeto.
Mas a montagem da Sociedade Arminda desloca o foco tradicional da obra. Em vez de enfatizar o melodrama da mulher abandonada, UMA VOZ HUMANA acompanha o movimento de uma personagem que passa a enxergar, nas razões do outro, os limites que a aprisionavam. O fim de uma relação deixa de ser apenas uma perda para tornar-se também uma possibilidade de transformação.
Canções negras de diferentes épocas e estilos
Em cena, Larissa Nunes interpreta uma cantora que prepara o repertório de um show enquanto conversa com uma pianista amiga e atende às ligações do amante ausente. Entre uma canção e outra, entre aquilo que é dito e o que permanece invisível, ela reorganiza sua própria narrativa. Aos poucos, compreende que certas histórias só terminam quando deixamos de habitá-las.
A música ocupa papel central nessa travessia. Canções negras de diferentes épocas e estilos surgem como uma espécie de personagem paralela, comentando, ampliando e reinventando os estados emocionais da protagonista. Ao piano, Eloiza Paixão conduz essa conversa musical que transforma a memória afetiva em matéria cênica.
A encenação também dá continuidade à pesquisa de José Fernando Peixoto de Azevedo sobre as fronteiras entre teatro e cinema. Instalado em um espaço que já foi estúdio cinematográfico, o Teatroiquè torna-se parte fundamental da dramaturgia. Câmeras, projeções e uma grande tela revelam ao público os mecanismos de criação das imagens em tempo real. O filme nasce diante dos espectadores e, ao mesmo tempo, é atravessado pela força irrepetível da cena ao vivo.
"A peça-filme é o que o nome descreve: uma peça e um filme ao mesmo tempo", afirma o diretor. "Deslizamos entre a cena de teatro e o set de gravação, compondo um jogo em que o filme não é comentário ou duplicação da ação, mas parte da própria cena. Ao fim, tudo é teatro, e o cinema nos devolve ao teatro."
Retorno ao teatro
A parceria entre Larissa Nunes e José Fernando remonta aos tempos da Escola de Arte Dramática, onde a atriz foi sua aluna. Nos últimos anos, Larissa construiu uma trajetória destacada no audiovisual, participando de produções como Arcanjo Renegado, Anderson Spider Silva e a novela Além da Ilusão (Rede Globo), além de protagonizar o filme Nossa Vizinhança e integrar o elenco de O Gênio do Crime, atualmente nos cinemas.
Para a atriz, o encontro com o texto de Cocteau surgiu após longas conversas sobre maturidade, coragem e relações afetivas. "Embora seja comum atores pensarem que fazer teatro depois de tanto tempo signifique voltar para casa, sinto o contrário. Fazer teatro é justamente sair de casa, daquilo que está perigosamente cômodo", comenta.
Depois de Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes, inspirado na obra de Pier Paolo Pasolini, Uma Voz Humana reafirma a parceria entre a Sociedade Arminda e o Teatroiquè, aprofundando uma investigação sobre experiências de violência e transformação. Se no trabalho anterior a devastação surgia no campo social e racial, agora ela aparece nas ruínas do afeto e naquilo que pode florescer depois delas.
“UMA VOZ HUMANA convida o público a acompanhar uma mulher que aprende a escutar a si mesma. E talvez descubra que toda despedida, antes de ser um fim, é também uma forma de começar”, pontua Larissa Nunes.
Serviço:
UMA VOZ HUMANA
Até 20 de julho, sexta-feira, sábado e segunda-feira, 21h e domingo, 18h [sessão extra dia 16 de julho, quinta-feira, 21h].
Teatroiquè – Rua Iquiririm, 110 – Butantã, São Paulo.
80 minutos | 16 anos | R$40 a R$80 (vendas pelo site byinti.com).
Com direção de José Fernando Peixoto de Azevedo e atuação da atriz e cantora Larissa Nunes, o espetáculo parte do texto homônimo escrito por Jean Cocteau em 1930 para construir uma experiência que escapa às classificações. É teatro, cinema e show ao mesmo tempo. Uma peça-filme em que a música, a imagem e a presença ao vivo se entrelaçam para acompanhar uma mulher no instante em que ela decide abandonar a cena do abandono.
Quase um século depois de sua estreia na Comédie-Française, em Paris, o texto de Cocteau continua atual ao abordar uma condição que parece ter se intensificado na era digital: a estranha solidão que pode existir mesmo em meio à hiperconexão. Se, em 1930, o telefone representava uma revolução tecnológica, hoje ele revela que estar conectado já não garante proximidade, intimidade ou afeto.
Mas a montagem da Sociedade Arminda desloca o foco tradicional da obra. Em vez de enfatizar o melodrama da mulher abandonada, UMA VOZ HUMANA acompanha o movimento de uma personagem que passa a enxergar, nas razões do outro, os limites que a aprisionavam. O fim de uma relação deixa de ser apenas uma perda para tornar-se também uma possibilidade de transformação.
Canções negras de diferentes épocas e estilos
Em cena, Larissa Nunes interpreta uma cantora que prepara o repertório de um show enquanto conversa com uma pianista amiga e atende às ligações do amante ausente. Entre uma canção e outra, entre aquilo que é dito e o que permanece invisível, ela reorganiza sua própria narrativa. Aos poucos, compreende que certas histórias só terminam quando deixamos de habitá-las.
A música ocupa papel central nessa travessia. Canções negras de diferentes épocas e estilos surgem como uma espécie de personagem paralela, comentando, ampliando e reinventando os estados emocionais da protagonista. Ao piano, Eloiza Paixão conduz essa conversa musical que transforma a memória afetiva em matéria cênica.
A encenação também dá continuidade à pesquisa de José Fernando Peixoto de Azevedo sobre as fronteiras entre teatro e cinema. Instalado em um espaço que já foi estúdio cinematográfico, o Teatroiquè torna-se parte fundamental da dramaturgia. Câmeras, projeções e uma grande tela revelam ao público os mecanismos de criação das imagens em tempo real. O filme nasce diante dos espectadores e, ao mesmo tempo, é atravessado pela força irrepetível da cena ao vivo.
"A peça-filme é o que o nome descreve: uma peça e um filme ao mesmo tempo", afirma o diretor. "Deslizamos entre a cena de teatro e o set de gravação, compondo um jogo em que o filme não é comentário ou duplicação da ação, mas parte da própria cena. Ao fim, tudo é teatro, e o cinema nos devolve ao teatro."
Retorno ao teatro
A parceria entre Larissa Nunes e José Fernando remonta aos tempos da Escola de Arte Dramática, onde a atriz foi sua aluna. Nos últimos anos, Larissa construiu uma trajetória destacada no audiovisual, participando de produções como Arcanjo Renegado, Anderson Spider Silva e a novela Além da Ilusão (Rede Globo), além de protagonizar o filme Nossa Vizinhança e integrar o elenco de O Gênio do Crime, atualmente nos cinemas.
Para a atriz, o encontro com o texto de Cocteau surgiu após longas conversas sobre maturidade, coragem e relações afetivas. "Embora seja comum atores pensarem que fazer teatro depois de tanto tempo signifique voltar para casa, sinto o contrário. Fazer teatro é justamente sair de casa, daquilo que está perigosamente cômodo", comenta.
Depois de Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes, inspirado na obra de Pier Paolo Pasolini, Uma Voz Humana reafirma a parceria entre a Sociedade Arminda e o Teatroiquè, aprofundando uma investigação sobre experiências de violência e transformação. Se no trabalho anterior a devastação surgia no campo social e racial, agora ela aparece nas ruínas do afeto e naquilo que pode florescer depois delas.
“UMA VOZ HUMANA convida o público a acompanhar uma mulher que aprende a escutar a si mesma. E talvez descubra que toda despedida, antes de ser um fim, é também uma forma de começar”, pontua Larissa Nunes.
Serviço:
UMA VOZ HUMANA
Até 20 de julho, sexta-feira, sábado e segunda-feira, 21h e domingo, 18h [sessão extra dia 16 de julho, quinta-feira, 21h].
Teatroiquè – Rua Iquiririm, 110 – Butantã, São Paulo.
80 minutos | 16 anos | R$40 a R$80 (vendas pelo site byinti.com).
Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a): FREDERICO PAULA JUNIOR
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