Festas juninas crescem na era digital porque oferecem o que as redes sociais não entregam, diz especialista

Professor da UNIASSELVI analisa como a celebração une religiosidade, identidade cultural e necessidade de conexão humana em uma sociedade cada vez mais digital

Por RENAN VALLIM
5 Min

Divulgação UNIASSELVI

Em uma sociedade cada vez mais conectada, urbana e acelerada, as festas juninas continuam atraindo multidões e batendo recordes de público. Para o professor e coordenador dos cursos de Ciências da Religião, Teologia e Filosofia da UNIASSELVI, Kevin Leyser, o fenômeno ajuda a explicar uma necessidade crescente da sociedade contemporânea: a busca por pertencimento e conexões reais.
"A sociedade acelerada produz uma ‘fome de pertencimento’. As Festas Juninas oferecem algo que a vida urbana e digital frequentemente enfraquece: o encontro presencial, a proximidade física, a comida compartilhada, a música, a dança e o senso de comunidade", afirma.
Segundo o especialista, o sucesso da celebração vai muito além do entretenimento. Sob uma perspectiva sociológica, os festejos funcionam como espaços de fortalecimento dos vínculos coletivos. "O mundo digital nos oferece conexões sem fricção, mas a psique humana exige o atrito: o calor da fogueira de verdade, o cansaço real da dança, o cheiro do milho e a poeira do pátio. Quando milhões de pessoas vão a esses festejos, não buscam apenas entretenimento. Buscam chão simbólico, memória afetiva e uma pausa no deserto da virtualidade", explica.
Entre a colheita e a devoção
As origens das festas juninas ajudam a entender a riqueza simbólica da celebração. Antes de serem associadas aos santos católicos, as festividades estavam ligadas a antigas comemorações europeias relacionadas às colheitas, à fertilidade da terra e aos ciclos da natureza. Com o avanço do cristianismo, esse período passou a ser associado à devoção a Santo Antônio, São João e São Pedro.
Ao chegar ao Brasil com os portugueses, a tradição foi transformada e incorporou influências indígenas, africanas e regionais. "A Igreja compreendeu que não se apaga a memória da terra. Sutilmente, ela ‘deitou’ a devoção aos santos sobre o mesmo solo onde os antigos celebravam a colheita. E, por causa das influências indígenas e africanas, pode-se afirmar que a nossa Festa Junina não é uma festa importada. Ela se tornou uma celebração autenticamente brasileira, marcada por fé, culinária, dança, memória familiar e identidade popular", destaca Leyser.
Tradição, fé e megafestivais
O crescimento das grandes produções, dos festivais patrocinados e dos eventos voltados ao turismo levanta discussões sobre um possível esvaziamento do aspecto religioso das celebrações. Para Leyser, o risco existe, mas a realidade é mais complexa, com as duas formas de celebração coexistindo atualmente. "Existe um risco real de esvaziamento, sim. Quando a festa é reduzida a festival, palco, consumo e patrocínio, a dimensão devocional corre o risco de virar mera decoração ou cenário instagramável. Mas seria simplista dizer que o religioso desapareceu".
Na avaliação do professor, há espaço para o moderno e para o tradicional. "A grande produção monta um palco monumental e iluminado, mas a verdadeira festa frequentemente resiste na penumbra: ali onde uma avó amarra a fita no cabelo da neta, ou onde alguém acende uma pequena fogueira no portão de casa para cumprir uma promessa silenciosa. Uma festa popular permanece viva porque se adapta, mas a adaptação sem memória vira produto vazio", diz.
Um símbolo nacional
Embora o Nordeste seja considerado o principal centro simbólico das festas juninas, a celebração se consolidou como patrimônio cultural de todo o país. "As Festas Juninas ajudam a consolidar uma imagem muito potente da cultura brasileira: comunitária, mestiça, regional, festiva e profundamente ligada à religiosidade popular", afirma.
Para quem pretende participar dos festejos neste ano, Leyser recomenda um olhar mais atento para os elementos que compõem a celebração. "A primeira atitude é perceber que nada ali é só enfeite. A fogueira, os pratos típicos, os passos da quadrilha e as bandeirinhas carregam séculos de história, trabalho e afeto. A pessoa deixa de ser uma mera consumidora de um evento e passa a fazer parte de uma tradição viva que atravessa gerações. Afinal, a fogueira junina não serve apenas para aquecer a noite; ela serve, principalmente, para iluminar os nossos vínculos".  

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