Sexo, religião e culpa ainda afetam a vida sexual de milhões de brasileiros
Especialista alerta que tabus históricos sobre o prazer afetam a saúde sexual e emocional de milhões de mulheres
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Falar sobre sexo ainda é um desafio para muitas mulheres brasileiras. Não por falta de informação, mas porque a sexualidade continua atravessada por crenças, valores e normas sociais construídas ao longo de gerações. Em um país marcado pela influência religiosa e por heranças históricas que moldaram a forma como corpos femininos são percebidos, o prazer ainda costuma ser tratado com culpa, silêncio e julgamento. No Brasil, onde mais de 80% da população se declara cristã, segundo o Censo 2022 do IBGE, valores religiosos seguem exercendo forte influência sobre a forma como a sexualidade é vivida. Para a Dra. Íris Bazílio, doutora em Enfermagem, sexóloga e pesquisadora em neurociência, essa construção cultural ultrapassa a esfera individual e pode gerar impactos emocionais, físicos e sociais.
Quando o prazer é associado ao pecado A ideia de que a sexualidade deve estar restrita à reprodução foi consolidada ao longo dos séculos e influenciou diferentes gerações. Em muitas tradições religiosas, o prazer passou a ser visto com desconfiança, especialmente quando relacionado às mulheres. Segundo a especialista, essa mentalidade ainda aparece nos atendimentos clínicos. "Muitas mulheres chegam ao consultório carregando a ideia de que sentir prazer é algo errado. Elas foram ensinadas a servir, mas não a sentir. Com o tempo, essa crença pode se manifestar como falta de libido, dificuldade de atingir o orgasmo e até dor durante as relações", explica. A Dra. Íris observa que esses bloqueios costumam surgir de uma combinação de fatores, como educação rígida, experiências traumáticas, violência, repressão religiosa e ausência de diálogo sobre sexualidade.
Corpos femininos sob controle histórico As discussões sobre sexualidade também carregam marcas históricas profundas. Ao longo dos séculos, o corpo feminino foi submetido a diferentes formas de controle social, moral e religioso. Em muitos contextos, mulheres tiveram seus desejos silenciados enquanto lhes era atribuído o papel de cuidadoras, esposas e mães. Compreender essa trajetória histórica é fundamental para entender por que tantas mulheres ainda encontram dificuldades para falar sobre prazer, limites, consentimento e autocuidado. Na prática clínica, a Dra. Íris relata que muitas pacientes afirmam nunca terem conversado abertamente sobre seus desejos ou sequer conhecido plenamente o próprio corpo. "Existe um verdadeiro sepultamento da sexualidade feminina em muitas histórias de vida. São mulheres que passaram décadas priorizando o prazer do outro sem nunca se sentirem autorizadas a viver o próprio prazer."
Corpos negros entre o controle e a resistência A discussão sobre sexualidade também precisa considerar os impactos do racismo na vida das mulheres negras. Historicamente, seus corpos foram submetidos a formas específicas de controle e violência desde o período escravocrata, quando eram frequentemente privadas da autonomia sobre o próprio corpo e da possibilidade de exercer sua sexualidade de forma livre. Enquanto eram hipersexualizadas e objetificadas, seu direito ao prazer, ao afeto e à autodeterminação permanecia invisibilizado. Os reflexos dessa herança histórica ainda podem ser observados nos indicadores sociais. Embora representem o maior grupo feminino do país, as mulheres pretas e pardas seguem entre as principais vítimas de violações de direitos. Dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE apontam que elas registram taxas mais elevadas de violência psicológica, física ou sexual praticada por parceiros íntimos do que as mulheres brancas, com maior incidência entre jovens de 18 a 29 anos. Essa desigualdade também se manifesta na saúde e na autonomia econômica. Dados da Fiocruz mostram que mulheres negras enfrentam maior risco de violência obstétrica e representam 68% das mortes maternas registradas no Brasil. Ao mesmo tempo, estudos do Dieese e do Ipea revelam que a população negra compõe cerca de 80% da parcela mais pobre do país e que a renda média das mulheres negras permanece significativamente inferior à dos homens brancos. Para a especialista, esse conjunto de fatores limita o acesso a direitos, reduz a capacidade de tomada de decisões sobre o próprio corpo e contribui para a manutenção de ciclos históricos de vulnerabilidade.
Silêncio que também afeta a saúde As consequências desse cenário vão além da vida íntima. A culpa e os tabus relacionados à sexualidade podem dificultar o uso de métodos contraceptivos, a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e até o reconhecimento de situações de violência e abuso. Para a especialista, romper esse silêncio é uma questão de saúde pública. "Quando a sexualidade é tratada apenas como pecado ou obrigação, as pessoas deixam de conhecer o próprio corpo, deixam de fazer perguntas e passam a viver relações marcadas pelo medo e pela culpa." Os reflexos dessa construção também aparecem nos números. Mais de 30% das mulheres enfrentam dificuldade ou incapacidade de atingir o orgasmo, situação frequentemente associada a fatores psicológicos, vergonha do corpo e medo do julgamento.
Prazer também é cuidado Na contramão dos discursos que reduzem a sexualidade à obrigação ou à reprodução, a ciência aponta que o prazer está associado ao bem-estar físico e emocional. Segundo a Dra. Íris, a vivência saudável da sexualidade contribui para a redução do estresse, melhora da autoestima e fortalecimento dos vínculos afetivos. Para ela, enfrentar os tabus exige informação, escuta e diálogo. "A comunicação é o primeiro passo. O sexo bom começa na garganta, nos olhos e na capacidade de falar o que sente. Enquanto houver medo de conversar sobre desejo, prazer e afeto, os tabus continuarão ocupando espaço onde deveria existir informação", conclui.
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