O Nordeste que Ninguém Conta: como as PMEs da região estão silenciosamente liderando uma revolução tecnológica

A narrativa equivocada que insiste em circular nos corredores do setor da tecnologia brasileira

Por SERGIO FEITOZA
9 Min

Loredan Bernutty | Interactiva Networks do Brasil e Bernutty Technology

Por Loredan Bernutty — CEO da Interactiva Networks do Brasil e Bernutty Technology
Há uma narrativa equivocada que insiste em circular nos corredores do setor de TI brasileiro: a de que a transformação digital no Nordeste é lenta, periférica, secundária. Os números dizem o contrário, e quem está no chão do mercado sabe isso há anos.

O Brasil investiu US$ 90 bilhões em tecnologia da informação e comunicação em 2024, crescimento de 14% sobre o ano anterior, superando a média global de 10,8%, segundo dados da IDC compilados pela ABES. O Nordeste respondeu por 11,8% desse volume — e esse percentual está crescendo. Em 2025, a região registrou variação positiva de 8,3% no faturamento das PMEs, empatando tecnicamente com o Sul como a região de maior crescimento no país. Não é coincidência: é o reflexo de um mercado que amadureceu e passou a entender que tecnologia não é custo, é competitividade.

Fortaleza no centro do mapa digital

Parte dessa história começa no Ceará. O Banco Mundial, em seu estudo Nordeste Digital: Fundamentos para a Elaboração de uma Estratégia de Transformação Regional, identificou Fortaleza como o principal hub de cabos submarinos da América Latina, conectando o Brasil aos Estados Unidos, à Europa e à África com latência inferior às rotas tradicionais do Sudeste. Não é uma vantagem futura — é uma vantagem que já opera.

O estado vai além da infraestrutura passiva. O Ceará produz, apenas em fontes eólicas e solar, 4,5 GW de energia por hora, contra um consumo médio de 1,65 GW. Essa sobra de energia renovável e barata atrai data centers de escala global — e com eles, toda a cadeia de fornecedores, integradores e empresas de tecnologia que atendem o mercado local. Não por acaso, o BNDES confirmou investimentos para ampliar a capacidade instalada em Fortaleza, com um único empreendimento prevendo atingir 20 MW de capacidade de TI até 2029.

Para quem distribui e integra soluções de TI no Nordeste há mais de 26 anos, como fazemos na Interactiva Networks, este cenário tem um significado preciso: o mercado endereçável para as PMEs da região nunca foi tão sólido.

O que as PMEs estão comprando — e por quê faz todo sentido

A transformação nas pequenas e médias empresas nordestinas não passa necessariamente por projetos de IA de grande porte ou infraestruturas de data center próprio. Ela começa onde o cliente está: no WhatsApp.

O Brasil tem mais de 147 milhões de usuários ativos na plataforma. Para as PMEs, o WhatsApp há muito deixou de ser um canal informal e passou a ser o principal ponto de contato com o cliente — para vendas, suporte e pós-venda. O problema é que, sem estrutura, isso vira caos: atendimento pessoal misturado com o profissional, sem histórico, sem métricas, sem continuidade. Dados do Sebrae apontam que apenas 41% das pequenas empresas brasileiras contam com algum tipo de automação integrada ao WhatsApp, e apenas 30% utilizam chatbots para vendas. O espaço para evolução é enorme.

A solução que estamos levando ao mercado integra o WhatsApp Business API corporativo a centrais de atendimento estruturadas, com filas inteligentes, URA (unidade de resposta audível) automatizada e registro de interações conectado diretamente ao CRM e ao ERP da empresa. O resultado prático é imediato: o cliente liga ou manda mensagem, o sistema reconhece quem ele é, recupera o histórico de pedidos ou contratos, e encaminha para o atendente certo — ou resolve automaticamente, dependendo da demanda.

Combinamos isso com telefonia 100% em nuvem, modelo UCaaS (Unified Communications as a Service), que elimina o PABX físico e toda a infraestrutura local de telefonia. Uma empresa com 25 ramais que paga em torno de R$ 3.600 por mês com telefonia convencional pode reduzir essa fatura para aproximadamente R$ 1.000 mensais com a migração para voz em nuvem — com payback médio entre três e seis meses. Mais do que economia, é escalabilidade: a empresa cresce, adiciona ramais, abre filial, muda de endereço, o sistema acompanha sem obras, sem técnicos, sem downtime.

A integração com ERP e CRM é o que transforma tudo isso de ferramenta em inteligência. Quando a central telefônica conversa com o sistema de gestão, cada ligação se torna dado. Cada interação vira contexto. O gestor deixa de administrar impressões e começa a administrar evidências.

O obstáculo real: não é o preço, é a confiança

Depois de mais de dois décadas atuando no Nordeste, com parcerias consolidadas com Cisco, IBM e Microsoft, e reconhecimento como um dos maiores distribuidores de TI da região, aprendi que o principal obstáculo para a adoção de tecnologia nas PMEs não é o custo. É a falta de contexto.

O empresário nordestino é pragmático e criterioso. Ele não compra tecnologia por catálogo. Ele compra quando entende o que está comprando, quando confia em quem está vendendo, e quando vê a aplicação prática no contexto do seu negócio. O discurso técnico, sozinho, não convence. A demonstração em ambiente neutro, sim.

Foi a partir dessa constatação que desenvolvemos uma abordagem que, à primeira vista, pode parecer inusitada para um distribuidor de TI: reuniões com vinho.

Tecnologia se aprende melhor à mesa

A Casa Bernutty Co., nosso braço de distribuição de vinhos brasileiros premiados, cobre as regiões Norte e Nordeste com um portfólio criteriosamente selecionado de rótulos nacionais de alto nível. O que começou como uma paixão pessoal pelo universo vínico brasileiro tornou-se, com o tempo, um instrumento sofisticado de aproximação empresarial.

Quando reunimos empresários, advogados, gestores financeiros e líderes de operação em torno de uma taça de vinho brasileiro de qualidade, o ambiente muda. A defensividade cai. A curiosidade sobe. As perguntas ficam mais honestas. E é exatamente nesse espaço que as conversas sobre digitalização se tornam produtivas.

Não se trata de uma estratégia de entretenimento corporativo. Trata-se de um método educativo baseado em uma verdade simples: decisões complexas são tomadas por pessoas, e pessoas se abrem melhor em ambientes de confiança. A mesa com vinho cria esse ambiente. A tecnologia entra como consequência natural de uma conversa que já está num nível alto.

Temos visto esse formato produzir resultados que anos de apresentações comerciais convencionais não produziram. Empresas que resistiam à migração para nuvem durante meses decidiram avançar após uma sessão desse tipo. Não porque foram convencidas por argumentos técnicos, mas porque entenderam a lógica do negócio no idioma certo.

O Nordeste que está sendo construído agora

O MCTI prevê investir ao menos R$ 2,49 bilhões nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste até o fim de 2026 em infraestrutura de pesquisa e inovação. O Índice de Inovação dos Estados 2025 registrou que o Nordeste subiu de posição no ranking regional, com Ceará e Pernambuco na liderança, e um salto de 13 vezes no volume de propostas de investimentos para inovação industrial. O 5G, que cobria 352 municípios brasileiros em dezembro de 2023, já alcançava mais de 1.300 cidades em 2025, com programas específicos para o Nordeste.

Este não é o Nordeste atrasado do imaginário equivocado de parte do mercado nacional. Este é um território em aceleração, com base de infraestrutura sólida, energia renovável abundante, capital humano crescendo em qualidade e um tecido empresarial de PMEs que está — finalmente e de forma consistente, entendendo que tecnologia é o caminho mais curto entre onde estão e onde querem chegar.
Loredan Bernutty é CEO da Interactiva Networks do Brasil, Bernutty Technology e Casa Bernutty Co. Economista formado pela UnB/UniPiB | Unifor, atua há mais de 26 anos no mercado de TI do Nordeste brasileiro.


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