Inclusão em pauta: avanço nos diagnósticos amplia acesso, mas impõe novos desafios à rotina dos professores

Por AMANDA SILVEIRA
5 Min

Imagem

O aumento expressivo no número de estudantes com deficiência matriculados na educação especial ao longo da última década tem redesenhado o cenário educacional brasileiro. Para os educadores Marceli Carvalho e Pedro Ferreira Jr., no entanto, esse crescimento não representa necessariamente um aumento de casos, mas sim um avanço na forma como a sociedade enxerga, identifica e acolhe essas crianças. “Os alunos com deficiência sempre existiram. O que muda hoje é que a informação sobre transtornos e deficiências está mais acessível. As famílias e as escolas conseguem identificar sinais ainda na primeira infância, o que acende um alerta mais cedo”, explicam.
Nesse processo, a escola ocupa um papel central. Os profissionais contam que, muitas vezes é a própria escola que conversa com a família, sinaliza que a criança não está conseguindo se desenvolver em determinados pontos e orienta a busca por avaliação. Além do avanço no diagnóstico, os educadores destacam outro fator determinante: o acesso. “A universalização da educação e a obrigatoriedade da matrícula fizeram com que essas crianças estivessem, de fato, dentro da escola. Hoje, não existe mais espaço para segregação. A inclusão acontece na escola regular, no convívio com todos”, afirmam Pedro e Marceli.
Com a formalização dos diagnósticos, o trabalho pedagógico ganha mais direcionamento. Os educadores relatam que quando você entende aquele aluno, você consegue pensar em estratégias para potencializar a aprendizagem. Eles reforçam, no entanto, que cada criança é única. “Mesmo com o mesmo diagnóstico, as necessidades são diferentes. Por isso, o olhar individualizado continua sendo essencial”, atentam eles.
Outro ponto destacado é a importância do trabalho multidisciplinar. Segundo eles, a escola precisa estar alinhada com terapeutas, psicólogos, fonoaudiólogos. O desenvolvimento dessa criança depende dessa rede.
Se por um lado a inclusão representa avanço, por outro, escancara desafios diários dentro da sala de aula. A falta de suporte e a necessidade de múltiplos planejamentos estão entre os principais entraves. “Você tem uma turma com 25 alunos e, muitas vezes, três com necessidades completamente diferentes entre si. Isso exige adaptações constantes e um planejamento muito mais complexo”, relatam. Entre as demandas que mais impactam a rotina docente, a produção de relatórios se destaca, não apenas pela frequência, mas pela responsabilidade que carrega. “Impacta diretamente a nossa rotina. O professor já tem um tempo específico para planejamento, mas ele precisa dar conta de planejar, adaptar atividades, registrar e documentar tudo. E, no caso das crianças com deficiência, os relatórios são ainda mais presentes”, explicam.
Os registros são essenciais para o acompanhamento da criança e para o diálogo com famílias e especialistas. “Muitas vezes, é a família que pede um relatório para levar ao médico, ou o próprio profissional de saúde solicita um retorno da escola. Quando o diagnóstico ainda não está fechado, o professor também responde questionários sobre o comportamento da criança e esse processo amplia a demanda e torna ainda mais evidente um desafio estrutural”.
Para os educadores, a sobrecarga não está apenas na quantidade de tarefas, mas no tempo disponível para realizá-las com qualidade. Embora exista a previsão de um tempo específico para planejamento, geralmente um terço da carga horária, a realidade ainda está distante do ideal. O resultado é uma rotina que ultrapassa os limites formais da jornada de trabalho. “É muito comum que os professores avancem seus horários, levem trabalho para casa e façam horas a mais sem remuneração.”
Nesse contexto, Pedro e Marceli estão preparando para lançamento em breve, um aplicativo que ajudará o professor em suas demandas de planejamento e relatórios, com uma aba específica para os relatórios da inclusão. A ideia veio com o intuito de agilizar o trabalho, que por mais burocrático que possa parecer é de extrema necessidade. Para Marceli e Pedro, a inclusão vai além de um desafio pedagógico, é uma mudança de mentalidade. “A inclusão só torna mais visível algo que sempre existiu: cada criança aprende de um jeito. O que muda agora é o compromisso de garantir que todas tenham espaço, aprendizado e pertencimento e o app desenvolvido por nós tornará a rotina mais leve e objetiva”, concluem.  

Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a): AMANDA MARIA SILVEIRA
comuniqueseamanda@gmail.com