Desertos de médicos: distribuição desigual desafia a saúde pública brasileira

Regiões remotas seguem sem profissionais, mesmo com aumento no número total de médicos no país

Por ANDRé ELOI
5 Min

ljubaphoto

 

A desigualdade na distribuição de profissionais de saúde transforma vastas regiões do país em verdadeiros desertos de médicos, especialmente no Norte e no Nordeste. Apesar do aumento expressivo no número de médicos nas últimas décadas, a maior parte deles segue concentrada em grandes centros urbanos do Sul, Sudeste e Distrito Federal, um desafio que pressiona o SUS e impede o acesso equitativo à saúde básica. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), Brasília tem uma proporção de médicos 4,5 vezes maior que o Pará, o estado com o índice mais baixo do país.

 

O mapa da desigualdade na saúde brasileira

 

A disparidade regional revela um padrão histórico: médicos migram para regiões com mais infraestrutura, melhor remuneração e oportunidades de especialização. Esse movimento aprofunda desigualdades no atendimento. Conforme dados do CFM, quase 60% dos médicos brasileiros trabalham em municípios com mais de 500 mil habitantes, enquanto cidades com até cinco mil moradores contam com apenas 0,5 médico por mil habitantes.

 

Os desertos de médicos são um fenômeno persistente e estrutural, mesmo com o país chegando a 576 mil médicos em 2024, o equivalente a 2,8 por mil habitantes, um salto em relação aos 0,9 por mil registrados em 1990.

 

Esse avanço numérico, porém, não foi capaz de combater a concentração nos grandes centros. O conselheiro do CFM, Donizetti Dimer, em entrevista ao portal Agência Brasil, explica que a lógica de mercado favorece cidades com maior renda, aprofundando desigualdades. Segundo ele, uma política robusta de fixação no interior é essencial para reverter o quadro: “se nós permitirmos que a medicina obedeça a uma lógica de mercado, vamos promover a desigualdade”.

 

Os desafios para fixar profissionais no interior

 

Levar médicos para regiões mais distantes de grandes centros urbanos é apenas parte da solução. O grande obstáculo está em fixá-los por longos períodos. 

 

Além da infraestrutura precária nas unidades de saúde, da falta de plano de carreira para atuação no SUS e de baixos incentivos financeiros e profissionais para quem trabalha longe de capitais, a ausência de hospitais estruturados, equipes multidisciplinares e acesso a tecnologia reduz a capacidade de atendimento e desestimula a permanência dos profissionais.

 

Porém programas federais têm buscado amenizar a situação. Desde a retomada do Mais Médicos, o Ministério da Saúde contratou 17 mil profissionais, totalizando 25 mil médicos em equipes de Atenção Primária em áreas vulneráveis. O reforço significa um aumento de 85% nos profissionais alocados em territórios remotos.

 

A expansão do ensino como estratégia de interiorização

 

Ampliar a formação médica em regiões carentes é uma estratégia de médio e longo prazo para reduzir os desertos de médicos. Ao cursar a graduação fora das capitais, muitos estudantes criam vínculos com a comunidade local e tendem a permanecer no interior após se formarem.

 

A expansão do ensino superior também ajuda a descentralizar serviços de saúde, já que escolas médicas costumam instalar clínicas, ambulatórios e programas de extensão universitária que atendem a população local. Isso gera impacto direto na qualificação da rede.

 

É nesse contexto que surge o debate sobre abrir novas instituições de ensino médico fora dos grandes centros. A expansão do ensino superior é vista como chave nesse processo, e a abertura de opções de faculdade de medicina em regiões carentes é uma estratégia para que o profissional crie vínculos com a comunidade local durante a formação.

 

Ao mesmo tempo, a abertura de cursos deve vir acompanhada de critérios rígidos de qualidade, integração com o SUS e programas de residência que mantenham o profissional no território.

 

Os desertos de médicos são resultado de um conjunto de fatores históricos, econômicos e estruturais. A interiorização da saúde exige políticas de longo prazo, incentivos permanentes, melhor infraestrutura e ampliação responsável do ensino médico. 

 

Embora programas federais reduzam parte do déficit, a fixação de profissionais no interior continuará sendo um dos grandes desafios do sistema de saúde brasileiro e um passo fundamental para garantir acesso universal e equitativo à população.

 

Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a): ANDRE LUCIO ELOI DE SOUZA FILHO
andre.eloi@conversion.com.br