A saúde mental das mulheres no trabalho exige respostas urgentes das empresas e do poder público

Um alerta que vem dos números: a crise silenciosa da saúde mental feminina. 64% dos casos de afastamentos por transtornos mentais estão concentrados em mulheres. É preciso mais que leis e programas corporativos para conter o avanço do adoecimento emocional no ambiente de trabalho

Por DA REDAçãO
10 Min

Ricardo Pacheco

A saúde mental das mulheres no trabalho exige respostas urgentes das empresas e do poder público   Um alerta que vem dos números: a crise silenciosa da saúde mental feminina. 64% dos casos de afastamentos por transtornos mentais estão concentrados em mulheres. É preciso mais que leis e programas corporativos para conter o avanço do adoecimento emocional no ambiente de trabalho   Mais de 1 bilhão de pessoas vivem atualmente com algum transtorno mental no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade estima que 12 bilhões de dias de trabalho sejam perdidos todos os anos por depressão e ansiedade - uma perda econômica global de US$ 1 trilhão por ano em produtividade.   No Brasil, a crise é evidente e se intensifica a cada ano. Dados da Série SmartLab de Trabalho Decente (OIT) mostram que os afastamentos por transtornos mentais mais que dobraram entre 2022 e 2024, passando de 201 mil para 472 mil casos - um salto de 134%.   A maior parte desses afastamentos tem nome e gênero: 64% envolvem mulheres, com idade média de 41 anos. Somente no primeiro trimestre de 2025, os afastamentos por transtornos mentais aumentaram 28%, sendo 71% das mulheres em cargos de liderança as que mais sacrificam o autocuidado para sustentar a carreira.   De acordo com a Agência Brasil, em 2024 foram registradas 141 mil licenças por transtornos de ansiedade e 113 mil por episódios depressivos. O aumento mais expressivo se deu entre mulheres, especialmente nas áreas de educação, saúde e serviços - setores com altas demandas emocionais e baixa oferta de suporte psicológico.   Segundo Dr. Ricardo Pacheco, médico, gestor em saúde e presidente da ABRESST – Associação Brasileira de Empresas de Saúde e Segurança no Trabalho há um aumento significativo dessas patologias em 2025. “Embora o dados apontem um aumento de 28% no primeiro trimestre desse ano, os números gerais para 2024 - cujo impacto se estende para o início de 2025, já indicavam um crescimento significativo”.   O médico alerta para a gravidade do assunto: “Estamos diante de um colapso emocional que não pode mais ser tratado como questão individual. É um fenômeno organizacional, social e de saúde pública”.   Trabalho, gênero e vulnerabilidade: a sobrecarga que adoece   A desigualdade de gênero no mundo do trabalho também se traduz em sofrimento mental. As mulheres continuam enfrentando jornadas duplas, disparidades salariais, falta de reconhecimento e pressões de desempenho desproporcionais.   O relatório “Esgotadas”, do Lab Think Olga (ONG que visa sensibilizar a sociedade para as questões de gênero e intersecções, além de educar e instrumentalizar pessoas que se identifiquem como agentes de mudança na vida das mulheres), revela que 53% das pessoas vivendo com transtornos mentais no Brasil são mulheres.   “O esgotamento feminino não nasce apenas da carga de trabalho, mas da ausência de políticas corporativas que reconheçam e protejam o equilíbrio emocional das mulheres. É um problema estrutural, não individual”, destaca o Dr. Ricardo Pacheco.   De acordo com o estudo global The Capacity to Thrive, da Women Business Collaborative (EUA), 60% das mulheres dizem não se sentir apoiadas por seus empregadores quanto à saúde mental e 70% afirmam ter medo de falar sobre o tema no trabalho.   “Essa barreira cultural - o silêncio - é hoje um dos maiores inimigos da prevenção”, lamenta o médico.   Leis avançam, mas ainda não bastam   Desde maio desse, empresas no Brasil são obrigadas a avaliar riscos psicossociais, conforme a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). A medida representa um marco na prevenção de doenças mentais relacionadas ao trabalho, mas a legislação ainda carece de aplicação prática e acompanhamento efetivo. “Avaliar riscos é o primeiro passo, mas de nada adianta um relatório se não vier acompanhado de planos de ação. Precisamos transformar a lei em cultura corporativa”, reforça Dr. Ricardo Pacheco.   Segundo a OIT, apenas 46% dos municípios brasileiros contam com políticas ou programas estruturados para o atendimento de transtornos mentais. Isso significa que mais da metade da população economicamente ativa segue desassistida.   No mundo, estudos da OMS e da Health Assured mostram que mulheres têm duas vezes mais chances de desenvolver ansiedade e índices mais altos de depressão do que os homens.   “Esses dados, somados à realidade brasileira, evidenciam a urgência de integrar o cuidado mental à gestão de pessoas e à política de saúde ocupacional”, enfatiza o médico e mentor.   O impacto invisível: líderes esgotadas e talentos em risco   No topo das corporações, a situação também preocupa. Levantamento internacional da Deloitte (2025) mostra que 71% das mulheres em cargos de liderança afirmam ter negligenciado o autocuidado por causa da sobrecarga profissional. Esse comportamento eleva significativamente os índices de burnout, insônia e quedas de desempenho.   “As mulheres que lideram carregam uma pressão dupla: entregar resultados e provar constantemente seu valor. Sem apoio institucional, o esgotamento é inevitável”, observa.   A cultura de desempenho extremo e a falta de espaços seguros para falar sobre sofrimento mental resultam em prejuízos não apenas humanos, mas também econômicos: o absenteísmo e o presenteísmo crescem, e as empresas perdem talentos qualificados.   “Cuidar da saúde mental das mulheres não é custo - é investimento estratégico. É garantir continuidade, inovação e reputação”, reforça o médico, empresário e palestrante.   Caminhos para a mudança: do diagnóstico à ação    Para o Dr. Ricardo Pacheco, a resposta precisa ser multinível, unindo empresas, governos e sociedade em torno de metas concretas.   Ele elenca algumas propostas:
  1. Diagnóstico contínuo de riscos psicossociais, com recorte de gênero e geração de indicadores anuais;
  2. Programas de mentoria e acolhimento emocional voltados especificamente às mulheres;
  3. Capacitação de gestores para diálogo empático e detecção precoce de sofrimento;
  4. Políticas reais de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, com jornadas flexíveis e apoio para mães e cuidadoras;
  5. Integração entre Saúde e Segurança do Trabalho e ESG, com métricas transparentes sobre bem-estar e diversidade.
“Não basta falar em empoderamento feminino se os ambientes continuam adoecendo quem lidera. Precisamos de empresas que cuidem de verdade, não apenas que cumpram normas”, afirma o médico e palestrante.   Essa é uma pauta estratégica, completa o especialista. “Porque conecta indicadores econômicos, políticas públicas e histórias humanas reais. É sobre o futuro do trabalho - e sobre a saúde de quem o sustenta. Quando uma mulher adoece por causa do trabalho, a empresa perde mais do que uma trabalhadora. Perde visão, criatividade e energia. Cuidar da saúde mental feminina é cuidar do motor que move o País”, conclui Dr. Ricardo Pacheco.   Sobre o Dr. Ricardo Pacheco           Dr. Ricardo Pacheco é médico do trabalho, gestor em saúde e empresário, formado pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos. Iniciou sua trajetória com foco na saúde ocupacional e, ao longo dos anos, expandiu sua atuação para a promoção da saúde integral.          Em 2001, fundou sua primeira empresa de saúde, que posteriormente consolidando-se como uma plataforma de referência no setor.          Desde 2002, integra a ABRESST (Associação Brasileira de Empresas de Saúde e Segurança do Trabalho), assumindo a Diretoria de Ética e Legislação em 2008. Nessa posição, foi ouvinte na Câmara Técnica de Medicina do Trabalho, representando a entidade, e desenvolveu projetos importantes, como a implantação do Selo de Qualidade ABRESST e o apoio direto à presidência.          Em 2019, tornou-se presidente da entidade, cargo que ocupa pelo terceiro mandato consecutivo, expandindo significativamente o impacto da entidade, que hoje assiste mais de 4 milhões de trabalhadores.          Dr. Ricardo teve papel essencial na revisão e criação de Normas Regulamentadoras (NRs), como o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) da NR-01, além da inclusão de riscos psicossociais nas normativas. Também participou da criação da NR-38, voltada à segurança dos trabalhadores na limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos.          Durante a pandemia da covid-19, liderou protocolos de segurança para grandes produções audiovisuais e promoveu eventos online pela ABRESST, orientando empresas e trabalhadores sobre boas práticas em SST. Ativamente presente nos principais congressos do setor, foi um dos responsáveis pela retomada da 25ª edição do COBRASEMT, um dos mais importantes eventos da área.          Recentemente, participou do G20 no Brasil, abordando questões como estresse térmico e saúde ocupacional.          Reconhecido por sua expertise, colabora com entidades como ANAMT e ABERGO e frequentemente participa de veículos de comunicação para divulgar temas relacionados à saúde e segurança do trabalho. Seu compromisso com inovação e resultados faz dele um dos grandes nomes da saúde ocupacional no Brasil.   Dr. Ricardo Pacheco, CRM-SP 87570 I RQE 22.683.

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FONTE: Ricardo Pacheco, médico, gestor em saúde, palestrante, mentor e presidente da ABRESST.